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Além das Manchetes: A psicose política atualizada com sucesso - virada, derrota e fuga

Por Malu Fontes

Além das Manchetes: A psicose política atualizada com sucesso - virada, derrota e fuga
Foto: Reprodução/ Instagram

Nem bem o brasileiro acomodava os contextos que, entre as pesquisas de sábado à noite e a abertura das urnas 24 horas depois, deram a Lula a vitória, com 64,2 milhões de votos contra os 59,8 milhões de Flávio Bolsonaro, o país acordava na terça-feira com o boato de que o candidato derrotado havia fugido do país. E era verdade. Num intervalo de 20 dias, entre o primeiro e o segundo turno, o PL, partido dos Bolsonaros, saiu do sétimo céu para o subsolo de um pesadelo eleitoral. 
 

A última informação nos telejornais da noite era a de que Flávio foi para Miami para repetir o que em 2023 o venezuelano Juan Guaidó foi fazer nos Estados Unidos. Foi fazer oposição no que chamará de exílio, a partir dos Estados Unidos, para desestabilizar o governo Lula. As primeiras notícias da fuga não pareciam críveis. Como explicar que o candidato do partido que elegeu uma fatia gigantesca do Congresso, uma coleção de governadores do campo, que saiu vencedor em margem de votos no primeiro turno e chegou favoritíssimo ao segundo, foge de casa menos de 24 horas depois de ter quase 60 milhões de votos? 

 

Se o argumento para a fuga é o de que Alexandre de Moraes o persegue ao anunciar o confisco e consequente cancelamento do passaporte, por conta do risco de fuga pela condição de investigado de Flávio numa série de processos que nada tinham a ver com a derrota, o que o impedia, com os recursos financeiros que têm e ainda com um mandato de senador da República, de acionar alguma das melhores bancas de advogados do país, dispor o passaporte e se defender publicamente das acusações? Aliás, foi exatamente isso que ele disse que faria, na tarde de segunda-feira. À noite, mudou de ideia e fugiu. 

 

Rei fugido, rei posto, pois vazio em política não existe. Enquanto nada se sabia de concreto da fuga de Flávio, Waldemar da Costa Neto, o presidente do PL, já se reunia com Michelle Bolsonaro, madrasta de Flávio e agora senadora, ambos com cara de felizes, anunciando o modo como irão gerir os milhões de votos de sua bancada no Congresso. 

 

ONDE ESTÁ O WALLY?

Simultaneamente, o Centrão, esse bloco protagonista de tudo o quanto é governo, à esquerda ou à direita, já recalculou a rota: uma coisa é o PL ter milhões de votos e uma bancada enorme no Congresso num governo Flávio, o que não se concretizou, contra todos os cálculos do clã Bolsonaro. Outra, bem diferente, é estar agora dentro da reeleição de Lula, com cargos para negociar, em troca da aprovação de pautas. Gilberto Kassab já voltou pleno para o jogo. E Arthur Lira vem aí. 

 

E, mais importante de tudo, no quintal da direita bolsonarista que não aquela do sangue familiar, a campanha para a sucessão de Lula já dava as caras: enquanto a Polícia Federal montava o seu “Onde está o Wally?” para procurar Flávio, Tarcísio de Freitas, governador reeleito de São Paulo, e que só não estava no lugar de Flávio na chapa eleitoral 2026 porque Bolsonaro pai não quis, se ‘posicionou', com aspas mesmo, num vídeo no Instagram. Avisou que a eleição acabou, evitou a palavra Bolsonaro como quem é supersticioso e se benze para não pronunciar a palavra azar e ressaltou o quanto é preciso cuidar bem dos 60 milhões (sic) de votos dados ao campo da direita. Se aquilo não é o lançamento Tarcísio 2030, é o quê? 

 

A crônica política do dia será intensa. Com a chegada de Flávio aos Estados Unidos, há muito para ser contado. Agora se juntando ao irmão Eduardo e a outros nomes do bolsonarismo que fugiram para os Estados Unidos, Flávio deve repetir a tese da perseguição política por Alexandre de Moraes. Por aqui, deve se multiplicar a publicização de detalhes que ainda não se sabe no escopo dos inquéritos nos quais ele é investigado, do caso Dark Horse à sociedade com Willer Tomaz, também foragido nos Estados Unidos e com um armário de cadáveres escandalosos, envolvendo bets, lavagem de dinheiro e o escândalo do INSS. 

 

Eleito, Flávio ficaria livre de todas as acusações das quais agora terá de se defender. A psicose política nacional veio para ficar, agora com a polarização entre os que o chamarão de mártir perseguido e os que o apontarão como fujão com medo de tudo. 


*MaluFontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura e professora do Curso de Jornalismo da UFBA - @maluzes / [email protected]