Além das Manchetes: E o futuro? Tem, mas acabou
O tempo não para, mas, para boa parte dos jovens europeus, a sensação vigente parece ser a de que o movimento do tempo está empurrando-os para cenários muito piores do que eram antigamente. As ilustrações dessa percepção estão aí, aos milhares nesta semana, em imagens reais, mas não só, das ruas de Paris e de dezenas de cidades francesas, italianas, espanholas e portuguesas. Com direito a simbologias criadas pela IA e nem por isso excluídas da iconografia do caos: a Pantera Cor-de-Rosa inserida artificialmente em fotografias reais de protestos.
São multidões mobilizadas em diferentes países por uma realidade comum e hostil: a falta de futuro. A insuficiência de educação de qualidade, de moradias, de vagas de trabalho, de salários para sobreviver e para financiar o futuro, não só dos jovens mas também de quem já envelheceu e para quem não há financiamento do estado de bem-estar social: saúde, previdência, cuidados.
“Eu vejo o futuro repetir o passado". O verso de Cazuza, pessimista para os brasileiros dos anos 80, soaria, em 2026, lírico e excessivamente otimista para a geração Z européia que está nas ruas quebrando e queimando tudo, passado e presente. Jovens motivados pela falta de fé no amanhã e na possibilidade de repetição das oportunidades que seus pais e avós tiveram. A casa própria, o emprego digno e estável. No lugar, crise habitacional, precarização e uberização do trabalho.
O futuro parece aos europeus jovens um imenso vazio, precarizado, um arremedo de uma frase que talvez só faça sentido para baianos do Recôncavo, quando pedem algum produto comercial e o vendedor responde: “tem, mas acabou”. Esse é o cenário da França e da Europa em chamas. O futuro? Tem, mas acabou.
IMIGRANTES E DIREITA RADICAL
Sem horizonte, multidões vão às ruas destruir o presente e tudo o que sobra de um passado que não lhes diz nada, de monumentos históricos a marcas da indústria do luxo que são parte da identidade, da economia e do soft power do país. E como tudo, hoje e em qualquer lugar no mundo, termina em política e eleições, a perspectiva que parece emergir com mais força na Europa é o fortalecimento de uma onda já em movimento de ascensão da direita mais radical, ancorada fortemente na hostilidade da população aos imigrantes. Aos imigrantes é atribuída a culpa pela falta de trabalho e moradia.
Sobre a França e sobre o emparedamento de Emmanuel Macron entre a extrema direita, representada por Marine Le Pen, e a esquerda radical, de Jean-Luc Mélenchon, o jornal português Expresso manchetou: “Os protestos violentos deverão ter beneficiários óbvios: os extremos. Le Pen precisa que os eleitores vejam o caos. Mélenchon precisa que vejam a injustiça - quem pode ganhar com os motins em França?”
2013 E ORAÇÃO PARA PNEUS
Tudo começou, no caso francês, com estudantes novinhos, do ensino médio, em cujas escolas começaram a faltar professores para substituir os que paravam de trabalhar. A eles somaram-se as universidades, os professores, os pais, os trabalhadores e os coletes amarelos. Daí foi a ladeira escorregadia para os incêndios, as pilhagens, a destruição de automóveis, edifícios, lojas e a perda de controle pela polícia.
Há 13 anos, em junho de 2013, o Brasil via surgir nas ruas um novo tipo de ocupação das ruas, primeiro contra o reajuste das tarifas de ônibus em São Paulo, o Movimento Passe Livre. Disso, a coisa escalou para as jornadas de junho, os protestos “não vai ter Copa [2014]", a defesa do impeachment de Dilma Rousseff. De lá para cá, a equação política transformou a relação da direita e da esquerda com as ruas. Veio o bolsonarismo, a oração para pneus nas estradas, a vigília nos quartéis, o 8 de janeiro. De uma coisa a outra, chegamos à vertigem das últimas horas antes do segundo turno. Vença quem vencer, a correlação de forças políticas no Brasil não será, por muito tempo, a mesma vigente até aqui. Franceses gritam: “vamos pôr fim à era contemporânea”. No Brasil, após a apuração dos votos no domingo, o que os espectros ideológicos, o vitorioso e o derrotado, gritarão?
*Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura e professora do Curso de Jornalismo da UFBA - @maluzes / [email protected]
