Democracia pela metade
Saint-Just, jacobino e companheiro de Robespierre na Revolução Francesa, dizia com amargura, antecipando o seu triste destino, na guilhotina: “Desgraçados dos revolucionários que fazem a revolução pela metade, cavam a sua própria sepultura”. Os democratas brasileiros hoje poderiam parafrasear Saint-Just e reconhecer que “desgraçados dos democratas que fazem a democracia a metade, permitem o golpe que os vai derrubar”.
O golpe que provou o Impeachement de Dilma Rousseff escancarou as portas do país para um novo ciclo de ilusões , que chegou ao ápice com a prisão e condenação do ex- presidente Lula. A pergunta sem resposta é: foi para viver o caos dos dias atuais , greve de caminhoneiros e desabastecimento à frente, que a ex- presidente foi derrubada e o ex- presidente está preso? Pode ser desdobrada em outras: onde estão os brasileiros indignados? O que pretendo o presidente ( ilegítimo) Michel Temer? Criar um ambiente favorável à supressão das liberdades? A realidade, greve dos caminhoneiros e crise de desabastecimento à frente, parece indicar que sim. A direita brasileira na impossibilidade de chegar ao poder pelo voto, aposta suas fichas em um golpe de Estado para valer - com tanques nas ruas, prisões de opositores e censura - e na suposta salvaguarda do país contra o caos. Como a bandeira do anticomunismo não serve mais, a desculpa bem que pode ser a preservação da ordem. É o que está a caminho? É hora das forças democráticas se unirem e construir uma democracia de verdade, que, de cara, se traduza em justiça social e reformas. Rever o país de alto a baixo.
O problema do atual governo é que não inspira confiança. Onde grassa a desconfiança nada funciona. Esse o núcleo do problema. A comunicação precisa ser utilizada para resgatar a confiança. Mas de nada adianta a comunicação pela comunicação. A comunicação necessidade da realidade para existir. Fora disso, é produzir um descrédito ainda mais efetivo e perigoso, pois a cada movimento errado o ceticismo envenena ainda mais o cotidianos brasileiro.
* Francisco Viana é jornalista e doutor em Filosofia Política ( PUC-SP)
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