De Sócrates a Lula 2
Sócrates foi condenado, sem provas, de subverter os jovens atenienses. Lula, também, foi acusado, sem provas, de ter ganho, como propina, um triplex no Guarujá em troca de favorecimentos na Petrobras. A diferença é que Sócrates foi condenado a morte e recusou-se a fugir. Preferiu morrer, bebendo cicuta. Lula foi condenado à prisão, mas não se entregou à policia. O elo de identidade entre os dois - o filósofo e o metalúrgico que por duas vezes foi presidente da república - é que foram injustiçados. E a sociedade, em sua maioria, reconhece que havia mais perseguição política do que desejo de justiça.
Sócrates é conhecido pela sua vigorosa reputação: o filósofo, imortalizado por Platão, deixou para Atenas, o estigmas de que causou a sua morte e, isso foi o fator de sua decadência por mais de 2000 anos . O legado de Lula é mais modesto: não bebeu veneno, nem se imolou, mas deixa para o Brasil o estigma de golpista é antidemocrático.
A forma com que vem sendo tratado é emblemática de como as questões sociais veem sendo encaminhadas no país. Como caso de polícia. O que muda no país com a prisão de Lula? Nada. O país apenas exibe, mais uma vez, o seu ódio à questão social. Não quer se curvar à realidade: o atavismo chama-se desigualdade social. Não corrupção. Tem sido assim desde o Brasil colônia. Está presente em todas as fases da nossa história.
Sim, Lula errou. Mas não foi por causa do triplex de Guarujá. Foi por não ter realizado as prometidas reformas políticas e, como desdobramento, as reformas sociais. Ao persegui-lo, os conservadores imaginam estar punindo os corruptos. Logo irão esbarrar no muro da realidade. Todos os avanços que foram duramente conquistados estão sendo calcinados. O Brasil tornou-se um país toxico. Sem utopias. Sem sonhos. Quem irá resolver os problemas?
Logo a geração de Lula será passado. Mas a herança das contradições sociais só terá se agravado. Por que a repetição do mesmo - da exclusão social, do medo e do ódio - só agrava o que já é grave. Não é preciso estatísticas para comprovar. Basta olhar o rosto das pessoas nas ruas, nos hospitais, nos ônibus. Basta olhar a escalada da violência, dos impostos e do desemprego. Ler os jornais.
A pobreza está por toda parte. E se multiplica em proporções geométricas.
As disparidades sociais são como pedras que o Brasil carrega dentro de si e o oprime. Mas a ilusão leva a que a solução dos problemas seja sempre postergada. Por que? Cedo ou tarde, a reação popular virá. De que forma, não se sabe. Mas que virá, virá. Na Grécia, berço da civilização, veio na forma de ostensiva decadência. No Brasil, é possível, se traduzirá em selvagem violência. Uma violência difusa, incontrolável, presente nas cidades e no campo. O que não falta são pessoas que acreditam nos salvadores da pátria e nas boas intenções dos moralistas.
Por que seguimos nos iludindo? Por que preferimos as miragens da repetição do que a realidade?
Prender Lula é, guardadas as distâncias no tempo e na história, como condenar Sócrates a beber cicuta. Longe de ser a corrupção, o problema brasileiro está no conservadorismo atávico do pais. Este conservadorismo é que divide o pais. E faz de um grande ícone da esquerda um alvo permanente do conservadorismo. Sempre foi assim. Continuará sendo?
*Francisco Viana é jornalista e doutor em Filosofia Política(PUC-SP)
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