MAGNÍFICO, REITOR!

Ernesto Marques
Sob os olhares incrédulos de alguns, a indignação de outros e os aplausos nostálgicos dos que sentem saudades dos anos de chumbo, a ação da Polícia Federal na desocupação da Reitoria da UFBA, em pleno feriado pela Proclamação da República, escreveu o nome do reitor Naomar de Almeida na história política da Bahia. Ao confundir autoridade com autoritarismo, Naomar secundarizou o mérito da questão que levou os estudantes a ocuparem a Reitoria, colocando em primeiro plano um debate ético sobre o exercício do poder. Como se trata de poder delegado, com mandato – portanto um poder que não é intrínseco a ele, Naomar – o seu exercício está sujeito ao julgamento público pelas conseqüências de seus atos.
Deixemos de lado o mérito das duas questões – o REUNI e o recurso à força bruta – para analisar o contexto em que se desenrolou o espetáculo vergonhoso de 15 de novembro. O Conselho Universitário aprovara a adesão da UFBA ao REUNI numa reunião tensa, presidida pelo reitor. Os jornais registraram para a posteridade a expressão de um colérico Naomar encerrando a reunião aos gritos. Queiram os estudantes ou não, a decisão estava tomada e, pelo menos no aspecto formal, o rito fora cumprido. Se os métodos usados para a aprovação são legítimos ou não, a comunidade universitária é quem melhor pode julgar. E deve fazê-lo, para ajudar a sociedade em seu julgamento. As representações dos servidores e professores estão a dever posicionamento mais contundente a respeito.
O fato concreto é que os estudantes estavam derrotados na instância competente para dizer sim ou não ao REUNI. Outro fato: após 43 dias de ocupação e com baixa adesão entre os milhares de estudantes, o incrível exército de Brancaleone mobilizado naquela luta estava reduzido a uns 30 meninos e meninas exaustos e já sem condições de sustentar a ocupação. Mais: tão logo saiu a notícia da reintegração de posse, eles decidiram deixar a Reitoria e procuravam saída honrosa para um movimento derrotado politicamente. Mais um ou dois dias e o rei teria de volta o seu castelo, sem precisar tirar a espada da bainha. O problema é que reitor não é rei e a espada em questão, a Polícia Federal, é hoje uma das instituições mais importantes do País, após reconstruir sua imagem – manchada pelo papel de polícia política, conferido pelos ditadores de 1964.
Não houvesse testemunhado aquilo, até duvidaria: homens de preto, armados até os dentes, na proporção de dois ou três agentes para cada estudante. Desproporcional, acintoso e simplesmente ridículo. Os pais dos quatro detidos bem poderiam acionar o Estado por ter exposto seus filhos a uma situação constrangedora. Como estamos em plena democracia, os camburões da PF deveriam ser exclusivos para corruptos, narcotraficantes, sonegadores de impostos e gentes desse naipe. A desproporção evidente, inegável e absurda deve ser cobrada à Superintendência da PF. Quanto custou aquele espetáculo para nós, contribuintes? A Polícia não tinha nada mais relevante a fazer, a ponto de mobilizar efetivo tão numeroso na madrugada de um feriado para uma desocupação que tinha tudo para ser tranqüila? Onde anda a tal “inteligência” policial?
Como se não bastasse tudo isso, há que se registrar e refletir sobre a detenção dos quatro estudantes. Pelo menos um deles foi escolhido a dedo – dedo duro, diga-se de passagem. Os “home” procuraram o coordenador do Diretório Central dos Estudantes pelo nome e sobrenome. Assim levaram Gabriel Oliveira, na expectativa de acabar com a resistência pelo recurso à intimidação.
Pela primeira vez na história da UFBA um reitor chama a polícia para tirar estudantes de um prédio da Universidade. Não é exagero: descontado o período nefasto da ditadura militar, somente em maio de 2001 a polícia foi chamada para reprimir uma juventude no seu mais que legítimo direito de questionar, protestar e assim, chamar a atenção da sociedade. Ao recorrer à força bruta, o reitor reivindicou lugar de destaque máximo para sua foto numa imaginária galeria dos truculentos, ao lado dos servos da ditadura militar e do senador e ex-governador César Borges. Vassalo obsequioso, Borges rasgou a Constituição Federal em mil pedaços para agradar o “Chefe” e mandou a Polícia Militar invadir o campus. César fez a sua escolha, Naomar também. O reitor escolheu postar-se entre títeres e ditadores de províncias.
Qualquer decisão sobre o futuro das universidades públicas deste País interessa, obviamente, a toda a sociedade. Mas a adesão ao REUNI é algo complexo, a ponto de exigir mais profundidade de quem se arvore a opinar contra ou a favor. Os estudantes têm suas razões e argumentos. Tentar aplicar-lhes a pecha de baderneiros ou estigmatizá-los como os “do contra” é um desserviço à própria UFBA, à educação e à democracia. Se é difícil emitir opinião consistente sobre o REUNI, não há sombra de dúvida: o reitor errou, e feio. Muito feio, aliás. Noutros tempos, tempos cruelmente bicudos, outros reitores partiram em defesa dos estudantes e do inalienável direito de exercer plenamente a sua juventude contestadora, essencial para arejar cabeças hermeticamente fechadas ao novo.
Noutros tempos a autonomia da universidade foi manto protetor para abrigar quem fugia da repressão policial. Naomar rompeu com uma das melhores tradições da UFBA. E, como se reivindicasse o poder divino dos monarcas absolutistas, confundiu as coisas: não é o rei da UFBA, é apenas reitor. Apenas? Não. Não é pouca coisa. Reitor é antes de tudo, professor, educador. Poderia ter dado uma lição de habilidade política, de tolerância e de democracia. Preferiu mostrar poder de rei. Escolheu para si um lugar de destaque na história da Universidade. Bem longe e à direita de figuras como Edgard Santos, para citar apenas um exemplo dignificante do bom exercício do poder do reitorado. E como agiu consciente, merece ser cáustica ironicamente saudado com o trocadilho: magnífico, reitor!!
Ernesto Marques é radialista, jornalista e diretor da ABI