Jango, uma tragedya
“É função do artista violentar - o artista é sempre a esquerda eterna , lógico ou anárquico...”
Glauber Rocha
“Trago o cadáver do dr. Getúlio que representa o sofrimento do povo brasileiro”. Com essas palavras termina, em clima épico-apoteótico, a peça Jango, uma tragedya, escrita por Glauber Rocha em novembro de 1976, quase um mês depois do presidente João Goulart morrer de enfarto no exílio no Uruguai.
Baiano de Vitória da Conquista, Glauber Rocha, conhecido mundialmente como criador do Cinema Novo - destacou-se por filmes como Barravento, Deus e o diabo na terra do sol e Terra em transe -, ao longo dos seus 42 anos de vida foi rotulado como “esquerdista” pela direita e como “direitista” pela esquerda. Foi um dos primeiros exilados a antever o processo de abertura política a partir do general Geisel, que aliás aconteceu com a revogação do AI-5, a anistia e, posteriormente, o retorno gradual das eleições diretas, em todos os níveis; e sua perspectiva sempre foi penetrar no inconsciente do público. Com essa técnica, extraída da psicanálise, acreditava poder despertar a consciência das pessoas.
A frase de encerramento da peça busca essa finalidade: é uma síntese não só da tragédia de Jango, deposto pelos militares em 31 de março de 1964, mas da própria tragédia brasileira. Desde o suicídio de Getúlio Vargas (1954), o Brasil vem repetindo esse misto de tragédia e farsa que é o adiamento das reformas estruturais, com o único propósito de prolongar o sofrimento do povo e a submissão do país aos interesses internacionais - leia-se neo liberalismo. “A figura de Jango fascina Glauber pelo sentido trágico que carrega: o último sopro de resistência ao imperialismo”, afirma Humberto Pereira da Silva na excelente biografia de Glauber Rocha que escreveu. “A tradição da qual Jango descende, que inibia a expansão da burguesia liberal, foi fulminada pelo golpe de 1964.” Glauber não vê herdeiros políticos para Jango que, diferentemente de Getúlio, não deixou carta testamento, mas apenas o corpo para ser “devorado pelo povo” em ritual antropofágico, ainda na visão de Pereira da Silva.
O drama se repetirá agora em 2018? A pergunta é inevitável ao final da peça no Teatro Vila Velha, com direção de Márcio Meirelles. E talvez a resposta esteja no texto de Glauber: “A morte de Jango exige revisões à esquerda e à direita. Ninguém deseja mais pensar e agir segundo Moscou/ Washington/ Londres/ Pekim/ Paris: o cordão umbilical que nos une ao velho Mundo é o transmissor do grilo subdesenvolvimento”. É uma afirmação, porém, que soa questionável quando submetida à lupa da atualidade. Ao contrário de 1964 e da época do suicídio de dr. Getúlio (que voltou a dirigir o país em 1951, desta vez com a legitimidade do voto) , o inimigo dos conservadores não é mais o comunismo, mas, embora o comunismo historicamente tenha sido superado, o povo continua sendo visto com temor e preconceito. Tanto que os conservadores hoje não têm feito outra coisa senão destruir as conquistas populares. Além disso, se continua faltando uma autocrítica à esquerda e à esquerda quanto à tragédia janguista, não significa que os dois pólos ideológicos se equiparem. À direita continua sendo à direita e a esquerda à esquerda. Falta, sim, para ambos os lados definir o que é democracia e retomar o tema pelo ângulo que realmente importa: o ângulo das tumultuadas relações capital e trabalho. Só quando essa questão for superada é que o cadáver do dr. Getúlio, como do seu herdeiro Jango, deixará de representar o sofrimento do povo brasileiro. Em todo caso, vale conferir a montagem da peça de Glauber. É um espetáculo que tem substância é que contribui para aguçar a visão sobre a história do Brasil. Sobretudo como o conservadorismo reage quando se trata de impor vampirescamente seus interesses à sociedade como ocorreu com a deposição de Jango e a cruel perseguição aos seus seguidores. Em outras palavra, Jango, uma tragedya parece dizer o tempo inteiro: aprendam com a história, aprendam ... A peça sobre Jango foi um dos trabalhos que Glauber deixou como legado, além dos seus filmes, junto principalmente com desenhos que revelam um modo muito peculiar de ver o Brasil e a América Latina. Para ele, a vida era uma expressão estética. A peça Jango segue nessa mesma linha.
* Francisco Viana é jornalista e doutor em Filosofia Política (PUC-SP)
