Momento de pensar na comunidade humana
O filósofo Aristóteles, que foi preceptor de Alexandre, O grande, acalentava um sonho que persiste até os dias atuais: criar uma comunidade de amigos - hoje seria comunidade de amigos e amigas, porque uma comunidade só de amigos transpira o segregacionismo machista. Entendia que assim fortaleceria as relações entre as pessoas –que seriam mais felizes pois seriam mais próximas - e destas com o Estado. Que graças a confiança que habita entre os amigos ficaria mais seguro, dispensando exércitos.
Foi assim que começaram as utopias, que se difundiriam no Renascimento com o livro homônimo de Thomas Morus e que a Revolução Francesa consagrou com o culto à fraternidade. Com a Internet, palavra amigo se banalizou, mas é preciso ser resignificada. Amigo não pode ser apenas virtual, embora existam amigos virtuais e a Internet facilite formar redes de amigos. Amigo é aquele que nos ouve, mesmo que em silêncio, e não abre mão de sua participação e presença nas nossas vidas.
Mas que no dia-a-dia ganha dimensão maior: é o cidadão, o companheiro, aquele que reparte o mesmo pão, esse personagem singular que pensa, e promove, o bem comum. Amigo, em ambos os casos, não é discurso. É ação, é prática. É movimento. É conflito. É harmonia. É aquele que não pensa apenas no próprio interesse- os relacionamentos influentes, os ganhos financeiros, a exibição da “amizade” como se fosse uma jóia rara. Mas, que sabe amar e ser amado.
No dia 20 de julho, foi o dia internacional do amigo e da amizade. Vamos pensar no isolamento em que vivemos, mesmo em pequenas cidades, e, em lugar de construir muros, visíveis como ambiciona Donald Trump, ou invisíveis como tem provido a moderna cultura de massas, e modelar amizades. Houve uma época em que Salvador era um paraíso. O tempo passou. O paraíso virou passado. E os amigos? se perderam na correria da cidade. São mais uma conquista pessoal e menos uma fraternidade coletiva. Saudosismo? Não. Dura realidade. A amizade é um humanismo.
*Francisco Viana é jornalista e doutor em filosofia política (PUC-SP)
* Os artigos reproduzidos neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do Bahia Notícias
