O aviso por trás da greve geral
Qual é a causa de vosso desespero? Estais por certo, fechando a porta da vossa própria liberdade, se negai vossos desgostos a vosso amigo.
Shakespeare, em Hamlet
Não importa se a greve geral, dia 28 de abril, parou o país pela metade ou não. Como é pouco relevante, se devido aos piquetes, a greve foi compulsória ou não. Ou mesmo, como destacaram, no dia seguinte, as manchetes dos principais jornais se greve começou pacífica e terminou em tumulto. Importa o que a greve revelou: um país dividido, violento, sob todos os ângulos – seja na política ou no dia a dia da sua rotina endêmica de crimes -, com 14,2 milhões de desempregados, segundo os últimos dados do IBGE, e, sobretudo, um países sem esperanças.
Essa a leitura que parece sensata e exige antecipação. As chamadas reformas da Previdência e Trabalhista, em definitivo, estão fora do lugar. Falta legitimidade ao governo. Além de ter sido eleito na mesma chapa que a presidente Dilma Rousseff – que foi cassada e o vice presidente também - , foi duramente atingida pelas denúncias de corrupção da Operação Lava Jato. Tudo isso pesa. E não é tentando minimizar as mobilizações, nem desqualificando-as, com fez o prefeito de São Paulo, chamando os grevistas de “vagabundos” que irá resolver os impasses.
“ … A propina conseguiu algo incrível: unir esquerda e direita”, analisa do alto dos seus 87 anos e 70 de carreira, a insuspeita atriz Fernanda Montenegro, em entrevista revista Veja ( páginas amarelas 3 de maio de 2017). E continua: “Estamos mergulhados nessa lama desde sempre. Não vejo esperança neste governo, nem nada. Somos um país em que a metade da população não tem saneamento básico, e os corruptores aparecem na televisão falando com uma naturalidade cínica, quase cênica, como comprovam os politico. Nossa desgraça está nas valas que correm a céu aberto e na podridão que comanda o país. E o pior é que nem começamos a passar as coisas a limpo. Ainda estamos na fase de por as cartas na mesa. Muitas descobertas virão à tona. Vivemos uma tragédia. Porém, ainda estamos no terceiro ato.”
Quantos atos estão a caminho? O drama é que hoje não existe mais a opção entre esquerda e direita, mas sim entre uma modernização capitalista ou não, entre reformas dentro do capitalismo ou não, entre a ênfase às questões sociais ou apenas aos avanços tecnológicos. Eis a questão, hamletiana sem dúvida, mas nada ficcional. É o dilema de ser ou não ser trazido para a vida real, a liça do cotidiano.
Voltamos aos tempos de Getúlio Vargas, que era um reformista de visão, só que completamente diferentes: somos uma grande sociedade de massas, temos uma das maiores democracias do mundo, mas temos igualmente, problemas imensos, que vão das valas a céu aberto, às quais se refere Fernanda Montenegro, à colossal exclusão social.
Não é um problema ideológico. É concreto. Objetivo. Não comporta soluções retóricas. Não foi só a geração de Vargas que passou. Passou a geração de Jango, de Brizola, dos militares do golpe de 1964 e da Constituinte. Passaram também as primeiras eleições diretas pós-64. O país, afinal, mostrou a sua cara e está não é nada bonita, nem prima por feições nada harmoniosas.
É uma cara em que se misturam, por exemplo, os preconceitos e a intolerância, as inúmeras opressões psíquicas e a depressão, a irresponsabilidade política e o medo, principalmente. Sim, o país tem a marca do medo. E este só não é maior porque o país é muito grande e se move por inércia. O que fazer?
Se Marx, fosse vivo, e pudesse dar uma sugestão, o que ele diria? Certamente, sugeriria fazer a revolução burguesa e, de preferência, parecida menos com a francesa e mais com a inglesa, que levou a Inglaterra a se antecipar às reivindicações dos trabalhadores. Geralmente se fala da Revolução Francesa, pouco, quase nada da inglesa.
No entanto, a revolução inglesa se completou, a francesa não. Associou desenvolvimento com liberdade. O que o Brasil nunca conseguiu fazer e, por isso, vem mergulhando no individualismo atávico. Exatamente, o que o tem adiado as reformas estruturais e a modernização social. Se isso não for feito já, a razão não passará de mera alcoviteira da ilusão e, o que será pior, de estopim da insurgência e, ai sim, da violência generalizada. Há tempo para prefinir a grande crise. É curto, mas a comunicação de soluções objetivas, levará à saídas que possam apontar para a retomada do desenvolvimento, que é a verdadeira vocação brasileira.
* Francisco Viana é jornalista e doutor em filosofia política (PUC-SP)
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