DIGA NÃO À VIOLÊNCIA, DIGA SIM À EDUCAÇÃO

Maria Inês Carvalho e Lívia Barreto
Se por um lado sabemos que o povo nas ruas é capaz de fazer movimentos que podem transformar a vida do país, por outro, sabemos como é difícil mobilizar as pessoas por uma causa que não lhes pareça sua.
Defender a educação significa defender o nosso futuro e, principalmente assegurar um futuro mais promissor às novas gerações. Sabemos que quanto maior a escolaridade dos pais, maior chance de êxito escolar dos filhos. Por outro lado, as estatísticas de homicídios e da violência no Brasil nos indicam serem os jovens os que mais morrem. E lamentavelmente também são eles que mais matam. Como entender a violência senão como a dificuldade de conviver com o "outro", com as diferenças, com os limites que impõem a própria convivência humana? E quando encontraremos o momento mais acertado para atuar e tentar reverter esse quadro?
Se não atuamos agora, então quando? Crescer sem violência e mudar a
aterrorizante média de 16 assassinatos de crianças e adolescentes por dia no Brasil, que chama a atenção no mundo inteiro. Quantos de nós, de nossas crianças e jovens, vamos ainda ter que rezar para que o caminho das balas perdidas, do tráfico, da prostituição, do abuso da infância e da violência banalizada na sociedade não cruze o nosso caminho?
Isto possivelmente acontecerá, na medida em que continuemos esperando que só o governo possa resolver os déficits educacionais do país ou conhecer soluções inteligentes para os nossos problemas sociais.
É importante perguntar-nos não apenas como poderemos estar atentos ao exercício da cidadania, que permitirá a universalização de uma educação de qualidade que nos possibilite viver numa sociedade mais igualitária e menos violenta, mas também até quando fecharemos os olhos e os ouvidos para os sinais que as turbulências sociais nos indicam.
Quando será que compreenderemos que a educação integral dos nossos jovens, baseada nos ideais de Anísio Teixeira, é a principal ferramenta de transformação de nossa sociedade e que a socialização é uma das grandes tarefas da escola?
O momento exige a participação da sociedade em todos os níveis e a articulação de parcerias com o poder público e com as empresas. Estamos vivendo um momento em que circula uma forte energia entre os três setores da vida brasileira e precisamos aproveitar.
Nosso desafio em relação à educação de qualidade, não é de varejo, é de atacado. Mas, como mobilizar? Não temos receitas. Ninguém tem. Ao mesmo tempo todos podem contribuir de forma efetiva.
O que podemos fazer juntos é chamar a atenção sobre o tema, e levar nossa mensagem a cada um dos setores com os quais temos interlocução e oferecer sugestões.
Temos uma lei para o serviço voluntário. A nova Lei das ONGs, regulamentada em 1999. Ano passado tivemos a aprovação do Fundeb. Mas é preciso conhecê-la e cumpri-la.
O fato é que a comunidade pode participar de variadas instâncias da gestão da educação, seja do conselho de escola, da associação de pais e mestres, dos conselhos comunitários, do seu sindicato, das associações beneficentes e da sua igreja, organizando eventos que promovam uma maior interação da comunidade escolar, festas, comemorando as datas históricas, buscando aproximar os saberes escolares dos saberes da cultura familiar, sendo criativos e dando sentido prático e quotidiano aos conhecimentos escolarizados.
As pessoas podem se oferecer individualmente para o trabalho voluntário numa escola e assim abrir uma enorme janela para a sua formação profissional, independente de sua área de atuação. Isto porque na escola, além dos conteúdos didáticos, a criatividade e a multidisciplinaridade são resultados que se podem alcançar.
O mundo organizado em rede exige como condição de êxito para qualquer
profissional, capacidade de inter-relacionamento em diversos níveis. Isso pode representar, no futuro, uma experiência extremamente rica no mundo do trabalho. Pode vir a ser também uma boa oportunidade para você demonstrar o seu talento e criatividade, abrindo com isso uma chance "para que alguém o descubra".
As ONGs podem reunir seu grupo, seu time, e fazer o seu projeto. Valorizar uma equipe multidisciplinar, rica em diferenças, e descobrir pessoas com habilidade para mobilização. Organizar um setor de voluntários, auxiliar a capacitar os jovens e desenvolver o seu papel de protagonista.
Profissionalizar sua instituição é ter bons gerentes de projetos, fazer captação de recursos, reconhecer e recompensar o trabalho dos colaboradores e militantes. Promover parcerias. Um bom projeto é aquele que conta com o poder público, a iniciativa privada e a sociedade civil. Fazendo projetos de sucesso, lembrando que o primeiro parceiro é o público do seu projeto.
Precisamos criar um clima de esperança para fazer com que todos queiram fazer sua parte, pois sabemos que é possível movimentar a sociedade para trabalhar pela educação.
É preciso, finalmente, compreender que a educação é um projeto de médio e longo prazos, que traz enormes resultados para a vida de cada um e do nosso país.
Se todos nós participarmos, cobrarmos e fiscalizarmos a aplicação dos recursos da educação, estaremos contribuindo para o ideal de sociedade justa e fraterna que tanto desejamos. E, sobretudo, estaremos dizendo não à violência, que começa a se tornar endêmica no nosso país.
Na educação é onde estão todas as nossas esperanças de formar o cidadão e a sociedade que queremos e merecemos. Depende de nós!
Maria Inês Carvalho é administradora de empresas, membro do Conselho Estratégico do Instituto “Faça Parte” e do “Compromisso Todos Pela Educação”, Bahia.
Lívia Barreto é psicóloga e foi coordenadora do “Acorda Brasil”, do MEC.