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'Cabula! Cabula! Cabula!'

Por Grimaldo Carneiro Zachariadhes

'Cabula! Cabula! Cabula!'
"Cabula! Cabula! Cabula!". Este lamento ecoou quando passava o governador da Bahia, Rui Costa, durante o Carnaval deste ano em Salvador. Uma espécie de réquiem que relembrava o aniversário de um ano de um triste episódio da história recente da Bahia: a chacina ocorrida na Vila Moisés, no bairro do Cabula, no dia 6 de fevereiro de 2015, onde foram mortas 12 pessoas numa ação nebulosa da Polícia Militar. Rui Costa comparou, na época, os policiais a “um artilheiro em frente ao gol”. O placar final da partida foi uma goleada para a polícia do governador.

Entidades de defesa dos direitos humanos, como a Anistia Internacional, desconfiaram da versão da Polícia Militar de que teria ocorrido um confronto entre os policiais e bandidos. O Ministério Público do Estado da Bahia, encabeçado pelo promotor Davi Gallo, em investigação independente, concluiu que o que ocorreu, na verdade, foi um “massacre”."Todos os laudos cadavéricos indicam — todos — que o que houve foi uma execução.As vítimas estavam em plano inferior a seus agressores. Ou de joelho, ou deitadas" sustentou o promotor.

Já o inquérito feito pela polícia civil inocentou os artilheiros da PM confirmando que o que tinha ocorrido foi um confronto entre as partes. Este inquérito não conseguiria convencer nem a velhinha de Taubaté, entretanto, nodia 27 de julho, uma juíza substituta absolveu sumariamente os policiais militares envolvidossem sequer ter ouvido o Ministério Público Estadual. Em sua decisão, a magistrada alegou que os militares agiram de forma "moderada" e em legítima defesa, ainda que o saldo da “batalha” tenha sido 12 mortos apenas de um dos lados do embate.

O representante do grupo Reaja ou Será Morto, Hamilton Borges, afirmou com indignação que esta decisão assassinou pela segunda vez as vítimas. A Bahia tem uma das polícias que mais matam no Brasil. Segundo o levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, no 8º Anuário de Segurança Pública, a polícia baiana é a terceira que mais matou “em confrontos” no país nos últimos anos perdendo apenas pra São Paulo e o Rio de Janeiro. Ou seja, o estado tem uma verdadeira seleção de artilheiros. 

Episódios como o do Cabula mancham a reputação da Polícia Militar, da Justiça baiana e do governo estadual. Apesar da tentativa de algumas autoridades de escamotearem os fatos, muitos não querem deixar que esta chacina caia no esquecimento e por mais que tentem silenciar, ainda por muito tempo ouvirão uma súplica que insiste em se fazer ouvir: “Cabula!, Cabula! Cabula!”.  


* Grimaldo Carneiro Zachariadhes é editor da revista acadêmica Perspectiva Histórica e trabalho com a temática dos direitos humanos e doutorando em História, Política e Bens culturais pela Fundação Getúlio Vargas (FGV)

* Os artigos reproduzidos neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do Bahia Notícias