SOBRE JORNALISMO, JORNALISTAS E JORNAIS

Ernesto Marques
Estou ainda longe de ser um decano da comunicação baiana, mas sou de um tempo em que assinar uma matéria pela primeira vez era motivo para tomar várias cervejas em algum “abaixadinho”. Era (era?) como um batismo profissional, uma estréia ou coisa parecida.
Como fui repórter de TV, não vivi essa emoção. No nosso caso, o equivalente a começar a assinar matérias era aparecer nas reportagens. E nas rodas de jornalistas e radialistas, os comentários: “já tá botando a cara no vídeo!”. Mas era diferente. A nós de TV era exigido pelo menos uma boa performance na telinha, e se ainda de quebra escrevesse bem, era melhor. Mas não era imprescindível. Para os focas dos jornais era muito mais glamuroso começar a assinar matérias. Por outro lado, a “assinatura” das reportagens televisivas é inevitável. Em comum, a assunção da responsabilidade pelo conteúdo das matérias, pela forma como são editados os fragmentos dos fatos e da realidade que se quer reportar. Para os jornalistas, motivo de orgulho e afirmação profissional. Para a sociedade, uma proteção. Quando um trabalhador da notícia oferece o produto do seu trabalho assinado, atesta com o seu nome a qualidade técnica e, sobretudo, ética.
Só o debate acerca dos direitos autorais sobre textos e imagens tem matéria-prima suficiente para dar assunto a teses e dissertações. No limite estreito de um artigo só me resta ser preciso. Rebaixar a importância dada à assinatura das matérias, ou pior, renunciar a esta prerrogativa, é um grave erro que os jornalistas baianos não deveriam permitir-se cometer. Já abordei o assunto em conversas entre colegas e em situações mais formais, como na posse da Comissão de Ética do Sindicato dos Jornalistas, e daqui desejo ampliar o debate como ação afirmativa em defesa da profissão. Se não está escrito em lugar algum que as matérias devem sair obrigatoriamente assinadas, isso passa a depender da resultante entre a cobrança do público leitor, o posicionamento dos jornalistas enquanto categoria profissional e os interesses e princípios do dono da empresa de comunicação. E como a dinâmica da sociedade é algo inexorável, essa resultante muda na medida em que muda a intensidade e a forma como atuam essas três forças: os leitores, os jornalistas e os donos dos jornais.
Do ponto de vista prático e mais imediato, os efeitos da resultante deste tripé se refletem mais diretamente dentro de cada redação. Mas inevitavelmente repercutem de forma sistêmica nas demais redações e no meio jornalístico a ponto de influir no padrão de conduta que media as relações profissionais. Influencia, portanto, na moral em vigor. Há tremendo descompasso entre a redução de postos de trabalho nas redações e aumento exponencial da oferta de bacharéis em jornalismo legalmente aptos ao exercício da profissão. Mas isso não pode justificar a aceitação de regras que, se não trazem vantagens financeiras, ainda abalam a dignidade profissional. Não encontrei explicação razoável para que as matérias de política do “Correio da Bahia”, por regra, não sejam assinadas. Se for imposição da empresa, configura, no meu julgar, um grave atentado ao jornalismo. Se for renúncia deliberada por parte dos jornalistas de lá, é algo que merece muita reflexão, considerando rever essa postura.
Aqui não vai, que fique claro, qualquer reparo à linha editorial do jornal. Como qualquer veículo de comunicação, o “Correio” tem o direito de assumir o posicionamento que entender coerente com os princípios do grupo empresarial a que pertence. Esta liberdade é prerrogativa basilar de uma imprensa livre, independente de concessão. Assim como o jornalista tem o direito de assumir a autoria de seu trabalho. Assumo o ônus de emitir algo parecido com pré-julgamento, mas prefiro acreditar que as matérias de política saem sem assinatura dos respectivos autores e das respectivas autoras por imposição da empresa. Acredito mesmo que os bons colegas de lá só aceitam esta imposição como regra de sobrevivência.
Antes que me acusem de intromissão num assunto interno da empresa e seus empregados, é bom lembrar que o debate é tão público quanto é pública a natureza do jornalismo. Não é um problema dos jornalistas do “Correio da Bahia” nem é um problema dos jornalistas. É um problema do interesse de toda a sociedade baiana, que tem o direito de cobrar responsabilidade do jornalista, assim como do advogado, do contabilista, do engenheiro, do médico... Por trás da regulamentação profissional há muito mais do que um número de registro nos arquivos do Ministério do Trabalho. Há o compromisso explícito com uma série de preceitos, alguns dos mais importantes firmados com clareza em códigos de ética, que expressam – ou deveriam expressar – a consciência perfeita das responsabilidades individuais e coletivas para o bom exercício da profissão.
Como cidadão, jornalista e membro da Comissão de Ética do Sindicato dos Jornalistas Profissionais da Bahia, aproveito este espaço para provocar o debate, desejando que ele aconteça e seja franco, com autoria assumida, e que frutifique numa imprensa melhor, digna das mais elevadas tradições baianas.
Ernesto Marques é diretor da ABI e membro da Comissão de Ética do Sinjorba