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MARROCOS 2030

Cristovam Buarque

A África é separada da Europa por uma fina língua de água azul. Do avião, quando se sobrevoa Málaga, na Espanha, é possível ver o litoral do Marrocos, do outro lado do Mediterrâneo. Essa faixa de água azul separa dois mundos.

A grande diferença não está no número de carros, no tamanho das casas, na cor das pessoas, nem no valor nas contas bancárias. A verdadeira diferença entre esses mundos é invisível, e é a causa de todas as outras: a formação educacional da população e o conseqüente potencial científico e tecnológico em cada lado.

O que realmente diferencia a África da Europa é o número de analfabetos adultos, de crianças na escola, de adolescentes concluindo um ensino médio de qualidade, em horário integral, nível e quantidade de universidades e de centros geradores de conhecimento superior.

Todas as demais diferenças, separadas pela língua d'água, decorrem dessa diferença no grau de educação, em todos os níveis, da pré-escola à pós-graduação. Esse é o vetor que criou a diferença e construiu dois mundos.

No tempo dos faraós, o lado sul do Mediterrâneo era mais rico. No período greco-romano, havia igualdade quando se comparava Cartago e Alexandria, com Roma ou Atenas, mesmo considerando os séculos que separaram a plenitude dessas cidades.

Foi a revolução intelectual e a conseqüente revolução industrial, que começou há mil anos, que construiu tamanha diferença entre esses dois mundos. É irônico que o salto europeu na educação tenha sido induzido principalmente pela influência dos intelectuais árabes na Europa. Foram eles que, deixando o lado Sul do Mediterrâneo, levaram o pensamento grego, sobretudo as idéias de Alexandre, para revolucionar os velhos dogmas da Idade Média. Isso fez nascer o Renascimento, e surgir a revolução científica e tecnológica séculos depois.

Recentemente, por dois dias, o governo marroquino reuniu um conjunto de técnicos e políticos de diversos países do mundo, para discutir seu futuro, até 2030.

Desse encontro, duas lições podem ser tiradas: primeiro, um país muito menor do que o Brasil discute o seu futuro no longo prazo, coisa que o Brasil até hoje se nega a fazer; segundo, a percepção de que esse futuro deverá ser baseado no desenvolvimento, olhando para o resto do mundo, e na educação, investindo dentro do país.

É uma pena que nós não consigamos pensar além de cada eleição, nem tenhamos ainda entendido o papel radicalmente transformador e enriquecedor da educação. Não percebemos que ela é a única forma de derrubar os muros que dividem os dois Brasis e que separam nosso País dos países ricos.

Derrubar esses muros seria a mesma coisa que construir uma ponte entre os dois lados do Mediterrâneo. Durante os debates, Felipe González, Mario Soares e outros líderes e pensadores defenderam a necessidade de um novo entendimento para o rumo e as estratégias de desenvolvimento.

Mas foi o economista Enrique Iglesias, ex-presidente do BID e grande teórico do desenvolvimento latino-americano, que apontou a mudança do pensamento internacional.

Ele declarou que durante décadas considerou que o principal vetor do progresso era econômico. Confessando seu erro, admitiu que o desenvolvimento só poderá ser alcançado com investimentos na educação.

E ainda teve a gentileza de chamar de profetas aqueles que há décadas vêm defendendo essa posição. Profetas como Darcy Ribeiro, falecido há dez anos, que passou a vida combatendo a exclusão e lutando pela qualidade da educação.

Cristovam Buarque é professor da Universidade de Brasília e senador pelo PDT / DF