Modo debug ativado. Para desativar, remova o parâmetro nvgoDebug da URL.

Usamos cookies para personalizar e melhorar sua experiência em nosso site e aprimorar a oferta de anúncios para você. Visite nossa Política de Cookies para saber mais. Ao clicar em "aceitar" você concorda com o uso que fazemos dos cookies

Marca Bahia Notícias
Você está em:
/
Artigo

Artigo

CONDIÇÃO SOCIAL, NÃO UNI-VOS

Cláudio André de Souza

A Rede Globo não se cansa de surpreender os brasileiros. Em meados do ano passado a revista “Carta Capital” publicou reportagens que mostravam qual era a visão do âncora do seu principal telejornal, William Bonner, que concebeu o telespectador como um "Hommer" (personagem do seriado Os Simpsons) que chega cansado do trabalho, é preguiçoso e fica deitado no sofá tomando cerveja.
Para este público é que a Vênus platinada apresenta o Big Brother Brasil, versão tupiniquim do original que obteve êxitos empresariais na Holanda a partir de uma empresa especializada em reality shows, a Endemol. Vale de tudo nestes modelos de programa: mentir, trapacear, rasgar valores que se aproximem do bem comum e colocar em pedestais outros que se equivalham ao individualismo, numa corrida objetiva e desvairada rumo a um milhão de Reais.
Tal concepção de relação social a ser produzida dentro de uma casa luxuosa onde os ocupantes ficam parte do tempo em exercícios físicos e se alimentando (como aves de corte a serem abatidas no próximo paredão) não faria jus nem a Jon Elster, que resume o indivíduo num intenso buscar de ganhos para si próprio, desde que tais não firam o direito dos outros de também ganharem. No frigir dos ovos, estes programas revelam e orientam as pessoas para condutas que não são desejáveis numa democracia de massas e em uma sociedade acostumada a não buscar espaços públicos para resolver os seus conflitos, como por exemplo a forte exclusão social, ineficácia das políticas públicas estatais, justiça inacessível para os mais pobres, dentre outros.
O Big Brother revela a dura face do ideário liberal, onde cada um que se vire do seu jeito, da sua forma. Pensando assim, de certo, as pessoas se aproximariam do que Banfield chamou de "familismo amoral" ao estudar famílias em comunidades na Itália que não viam atrativos em participar de uma vida social com solidariedade, ou seja, participar de uma sólida esfera pública. Eles preferiam se fechar e buscar interesses de ganho apenas para a sua família, muitas vezes em detrimento do interesse do outro. Chegamos ao arquétipo do BBB: um confinamento de privilegiados, selecionados rigorosamente por critérios objetivos (a versão 2007 exige deles uma imagem que se identifique com a beleza e o sucesso) que se fecham numa casa e a partir dos seus atos o público, influenciado por edições de imagem feitas pela produção, "decide" quem sai do jogo.
No programa deste ano, há uma novidade que nem foi tão explicitada pelos organizadores. Falo de reportagens de jornais de significativa circulação que argumentam que o fim do sorteio de dois participantes do programa (eram sorteadas pessoas que ligassem mediante o pagamento de uma taxa) deve-se ao objetivo de "deslocar" as escolhas dos telespectadores por uma dada condição social, o poder aquisitivo. Ora, visa-se eliminar a possibilidade dos "consumidores" do programa de se identificarem com "brothers" humildes que não contam como capital simbólico, nem têm os cabelos loiros e nem são "ratos'' do “mundo fitness”. É notório que as preferências dos "consumidores" em diversas vezes descambaram pro lado dos mais necessitados, não sendo critério os cabelos com chapinhas ou o bíceps definido.
Em resumo, verifica-se que a Rede Globo se configura como uma mídia que faz "ouvido de mercador" para os seus telespectadores que clamam em dar um milhão para pessoas que necessitam do prêmio (por um dos pontos do que chamamos aqui de condição social) e não para o mais lindo, o que mente mais, ou que cozinha melhor. Na verdade, há uma singela rota de colisão entre a população que resiste num interesse bem-compreendido, descrito por Aléxis de Tocqueville, e a Globo que caminha num "familismo amoral" renovado por pensamentos neoliberais em voga.
Se há uma briga entre Davi e Golias há de se esperar pelos resultados, todavia, é evidente o comportamento da mídia de ir de encontro às opiniões públicas do povo e forjar uma outra. Fato velho, assim como governados não conseguirem controlar os passos dos seus representantes, um desenho empírico muito estudado na Ciência Política no âmbito das qualidades e atribuições da representação política e da accountability.

Cláudio André de Souza é estudante de Ciências Sociais da Universidade Federal da Bahia (UFBa) e bolsista de iniciação científica na área da Ciência Política.