A vítima e o algoz
Escrevo sem saber qual o resultado do jogo entre Brasil x Alemanha, mas já cravo um prognóstico. Qualquer que venha a ser o resultado, vitória ou derrota, teremos uma justificativa. Se ganharmos, o que seria bom, poderemos dizer que foi graças a Neymar, que com a sua ausência forçada, fez com que fosse trocado o individualismo da maior parte dos jogadores pelo coletivismo, que é o que deve prevalecer no futebol. Mas se perdemos, poderemos dizer que foi consequência da ausência do Neymar.
E foi essa ausência que me levou a escrever. Ausência que para a grande maioria dos simpatizantes do futebol, foi criminosa, e o autor do “crime”, o lateral Zuñiga, da Seleção da Colombia, é considerado o Inimigo Número 1 do Brasil. Além dos xingamentos em redes sociais, o jogador colombiano foi ameaçado e sua família também e, com certeza, não se arriscará a pisar em solo brasileiro por muito tempo, principalmente se não ganharmos a Copa.
Não entrou no mérito da intencionalidade ou não do jogador em cometer a falta. Até porque prezo a minha integridade física e da minha família, caso discorde de alguns torcedores mais apaixonados. Lembro apenas que futebol, como o basquete, são esportes de forte contatos físicos, onde ocorrem muitas lesões. Cito como exemplos os jogadores do Bahia, Ávine (fora do gramado talvez para sempre) e Rhayner, que ficou dois meses parados. E Palácios, afastado por lesões das semifinais dessa Copa das Copas. Ou ainda Hernanes, do Flamengo, que fraturou três vértebras em um choque semelhante com Luizão, da Cabofriense.
Mas é interessante verificar alguns pontos das análises técnicas feitas pelo Fantástico,para se ver que houve mais imprudência, típica de muitas disputas, do que intencionalidade criminosa, como creem boa parte dos brasileiros. Numa simulação, o programa mostrou o passo a passo da lesão que tirou Neymar daCopa. Transcrevo trecho do texto do Fantástico:
Depois do rebote do escanteio, os dois jogadores partiram para a bola. Do começo da corrida até o impacto, o Neymar percorreu uma distância de 7,5 metros; o Zuñiga, percorreu 7,8 metros. A velocidade máxima do Neymar foi de 17,2 km/h; o Zuñiga, chegou a 25,8 km/h.
No instante do choque, Neymar parou para dominar a bola, mas Zuñiga saltou e o atropelou. Depois do impacto, o jogador colombiano ainda estava a 18 km/h. E Neymar foi lançado para o chão a uma velocidade de quase 8 km/h.
Intencionalidade? Imprudência?. Um lateral, às vezes zagueiro, na ânsia de parar aquele que era o maior craque da Seleção Brasileira, talvez?
O que não podemos é, por conta da paixão que nos leva à comoção, agredir verbal e fisicamente (felizmente o jogador já voltou para a Colômbia) atletas, que em um esporte por si só violento, por conta do contato físico constante, e transformamos o esporte em uma guerra, onde jogadores adversários viram inimigos e a disputa vira um campo de batalha.
*Adilson Fonsêca é jornalista.
