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Fim dos manicômios e mais amor aos 'loucos'

Por Vítor Fernandes

Fim dos manicômios e mais amor aos 'loucos'
Ciente da necessidade de falar sério, às vezes, eu paro para refletir o que entendemos por “loucura”, “justiça” e “razão”. Não quero parecer enfadonho, mas os últimos acontecimentos de grande repercussão no país ou são barbaridade ou são mentira. A mídia esqueceu de dizer que precisa vender. E vender hoje se tornou algo tão nocivo que pessoas inocentes começam a ser vítimas da informação sem apuração, sem respeito à fonte, e, sobretudo, sem respeito a quem mesmo escreve ou veicula tais asneiras. Veja o caso da senhora que morreu, em São Paulo, linchada por ter sido acusada erroneamente de usar crianças em rituais de magia negra.

Que loucura, você pensaria logo de cara! E é nisso que quero adentrar e tornar o texto ainda mais sério. A loucura, comumente entendida como “comportamento desviante, fruto de desequilíbrios psíquicos”, tem sua definição permeada por aspectos sociais e culturais que se transformam ao longo das épocas, e que época essa nossa! E é dessa forma que cada sociedade prescreve conceitos de “normalidade”, consequentemente, designando como “anormal” aquilo que está fora da norma, que foge ao padrão. No caso de São Paulo, você não estaria errado em pensar que #somostodosbárbaros e não macacos, embora sejamos todos animais. Só fiquei na dúvida de quem é mais racional: os animais propriamente ditos ou nós, seres humanos.

Voltando ao que interessa. Historicamente, os “loucos” foram não apenas interpretados, mas definidos de diferentes maneiras, ou seja, a própria definição do que venha a ser loucura se modificou. A experiência da loucura no mundo ocidental, antes do século XIX, mostrou-se bastante polimorfa, a cada momento histórico, antes de ser confiscada no conceito de “doença mental”. Na Antiguidade Clássica, a loucura foi vista sob o viés de um modelo mítico-religioso, segundo o qual o desvario seria um castigo divino deferido ao sujeito em função de ter cometido uma afronta à divindade. Na Idade Média, a causa da loucura foi, sobretudo, atrelada à possessão demoníaca. Assim, o tratamento para os “endemoniados” foi atribuído aos padres, por meio do exorcismo. A partir do século XVII a racionalidade adquiriu paulatinamente maior credibilidade, havendo uma desvalorização das explicações míticas e religiosas.

Para entender melhor, em linhas gerais, na tradição ocidental, que valoriza a razão, a loucura foi desqualificada em sua capacidade de dizer a verdade. O louco, banido da sociedade, foi confinado em hospitais gerais, juntamente com outros sujeitos também marginalizados, tais como inválidos pobres, portadores de doenças venéreas, libertinos, etc. Somente no século XIX, período de criação da clínica psiquiátrica, é que o louco atingiu sua especificidade enquanto sujeito/objeto a ser estudado e tratado. Foi separado de outros grupos marginais e excluído em asilos específicos, sendo alojado em hospitais psiquiátricos e em manicômios. É o início da apropriação da loucura pela medicina, tal como conhecemos ainda hoje em dia. E é neste ponto que eu quero chegar!

Violação dos direitos

Depois de muitas denúncias dos abusos, das violações de direitos e das violências praticadas nos manicômios, de promover exclusão e isolamento dos sujeitos, da questão da mercantilização da loucura, com extensa rede privada na assistência e do despreparo dos profissionais, este modelo começou a entrar em decadência, e passou a ser questionado em todo mundo.

Há 36 anos no Brasil, trabalhadores da saúde e familiares fundaram o Movimento dos Trabalhadores em Saúde Mental (MTSM), dando início a uma das maiores conquistas da saúde no Brasil: a luta antimanicomial, que deu origem à Reforma Psiquiátrica. O dia 18 de maio surge nesse contexto para deixar registrado no calendário que essa luta não deveria ser esquecida. A data foi estabelecida como o marco nacional da luta antimanicomial no I Encontro Nacional dos Trabalhadores da Saúde Mental, em 1987, que teve como o lema: “Por uma sociedade sem manicômios”.

A partir deste movimento antimanicomial, do qual já tratei em outros artigos, muitas ações de trabalhadores, familiares e usuários da saúde mental produziram novas legislações objetivando garantir o progressivo fechamento dos leitos dos hospitais psiquiátricos e a implantação de dispositivos substitutivos de cuidado em liberdade. A defesa dos direitos das pessoas em sofrimento mental, além do cuidado em liberdade e a promoção de cidadania foram colocadas como prioridade desse movimento de reforma. Neste caso, o fator amor influência muito na continuidade das ações trabalhadas junto com familiares. Engraçado como o amor ajudar a vencer tudo.

Mas vamos continuar antes que o espaço acabe e deixe de apresentar dados importantes. Após mais de duas décadas de luta, muitos avanços foram conquistados, no entanto, existem ainda grandes desafios. Entre os pontos de retrocesso estão a privatização da saúde, inclusive na área da saúde mental, com o crescente incentivo às comunidades terapêuticas e a internação compulsória. Segundo psicólogos ligados à causa, para além da mudança do modelo assistencial, é necessária uma transformação paradigmática, cultural e historicamente construída de segregação do diferente e exclusão dos que não são funcionais para o modelo de produção capitalista.

E para quem acha que o louco é uma parcela pouco representativa na população, o próprio Ministério da Saúde mostra que 3% da população geral sofre com transtornos mentais severos e persistentes, ou seja, 5,7 milhões de pessoas. Outras 12 milhões apresentam transtornos psiquiátricos graves decorrentes do uso de álcool e outras drogas; e 12% da população, ou cerca de 23 milhões de pessoas, necessitam de algum atendimento em saúde mental, seja ele contínuo ou eventual. Depois disso tudo, a ansiedade é para perguntar quem é o louco agora, a senhora que tinha transtorno bipolar, ou as pessoas que a lincharam (mataram)? E então, quer dizer que posso pensar que Deus sou eu? Melhor não ser um normal!


*Vitor Alves de Fernandes é jornalista e assessor de comunicação