A volta do fantasma do racismo
Embora seja branco, sou filho de negra. Meu pai que é o “parmalat” na história. E não aprendi em casa a lidar com o racismo. Sendo branco, você pode pensar que sempre vivi entre os burgueses, entre os ricos, mas perde quem apostar. Sempre tive minhas raízes no quintal, se é que me entende. Jogava bola com os amigos no campinho da Urbis, em Itaberaba e ninguém escolhia os jogadores dos times pela cor da pele, mas isso não dizia nada. Ninguém entendia que isso era a inocência.
O que lembro é que eu era o único branco dos times. Todos os meus amigos eram negros. E até hoje, se não é negro, é índio, ou descendente. Nunca fomos tratados diferentes, nunca percebi a diferença e nunca consegui sentir raiva velada a uma pessoa por causa da cor da pele. Piro com o X-9, com o vacilão, com aquele que quer crescer em cima do trabalho dos outros, do omisso, que cala ao ver o erro. E foi assim que saí do meu último emprego, só tinha exploradores mentirosos e manipuladores. Está dado o recado, “se uma mosca ameaçar me catar, eu piso nela”, e tenho dito.
Bom, voltando ao assunto, morei no “subúrbio”, em Itaberaba, onde meus pais vivem com todas as nossas recordações até os dias de hoje. O fato de ir estudar na capital me fez enxergar outro mundo, ou ter outra visão deste que descrevo aqui. O preconceito era diário, em pequenos detalhes. Desde o motorista de ônibus não parar no ponto para pegar um passageiro negro, até não abrir a porta da frente para o idoso ou deficiente. Já presenciei várias cenas dessas na época de colégio. E é isso mesmo, eu ia de busão e voltava assim também, morava de favor na casa de um parente – já nem lembro!
Fato é que a maioria dos meus amigos são negros, minha noiva é negra, ao menos ela diz que é, e até o melhor amigo é negro. Enfim, não se podia esperar outra coisa morando em um estado que tem a maior quantidade de negros fora da África. Ou melhor, dizem que “Salvador é a cidade mais negra do mundo fora da África”. Pra não ficar o erro e o movimento negro vir pra cima de mim. É a última coisa que eu ia querer depois de escrever este suado texto.
Mesmo assim o racismo é diário e continua a assolar a Bahia e todo o país. Os últimos relatos são de racismo no futebol. Isso mesmo. Perto de sediar o maior evento de futebol do planeta, o Brasil se depara com o fantasma no esporte e o pior: vêm da torcida as ofensas. Uma vergonha, mesmo não esperando muito de um país onde “Lepo Lepo” é música pra criança dançar e onde a arte é preterida em todos os sentidos – o que está mais fácil vira arte. Falando em arte e mudando de assunto, lembro de Jean-Michel Basquiat, acho que nunca o citei em meus insanos textos, mas agora me veio à cabeça as pinturas dele, desde quando era grafiteiro até se tornar membro do neo-expressionismo.
Da mesma forma me lembro das letras de protesto que o grupo norte-americano Rage Against The Machine canta em suas músicas. Basquiat e o comandante do Rage, Zack de la Rocha, são dois artistas negros que se destacam no cenário mundial. Sem contar outros, não vou nem citar para não ficar aqui enumerando os muitos doidos como Chuck Berry, Ben Harper, Gilberto Gil, Falcão do Rappa, Carlinhos Brown e tantos outros. Só não coloco o Michael Jackson na lista, porque ele ficou branco. Perdão ao trocadilho e à enfermidade do artista já falecido. Perco a piada, mas não o amigo, ou seria o contrário?
O que lembro é que eu era o único branco dos times. Todos os meus amigos eram negros. E até hoje, se não é negro, é índio, ou descendente. Nunca fomos tratados diferentes, nunca percebi a diferença e nunca consegui sentir raiva velada a uma pessoa por causa da cor da pele. Piro com o X-9, com o vacilão, com aquele que quer crescer em cima do trabalho dos outros, do omisso, que cala ao ver o erro. E foi assim que saí do meu último emprego, só tinha exploradores mentirosos e manipuladores. Está dado o recado, “se uma mosca ameaçar me catar, eu piso nela”, e tenho dito.
Bom, voltando ao assunto, morei no “subúrbio”, em Itaberaba, onde meus pais vivem com todas as nossas recordações até os dias de hoje. O fato de ir estudar na capital me fez enxergar outro mundo, ou ter outra visão deste que descrevo aqui. O preconceito era diário, em pequenos detalhes. Desde o motorista de ônibus não parar no ponto para pegar um passageiro negro, até não abrir a porta da frente para o idoso ou deficiente. Já presenciei várias cenas dessas na época de colégio. E é isso mesmo, eu ia de busão e voltava assim também, morava de favor na casa de um parente – já nem lembro!
Fato é que a maioria dos meus amigos são negros, minha noiva é negra, ao menos ela diz que é, e até o melhor amigo é negro. Enfim, não se podia esperar outra coisa morando em um estado que tem a maior quantidade de negros fora da África. Ou melhor, dizem que “Salvador é a cidade mais negra do mundo fora da África”. Pra não ficar o erro e o movimento negro vir pra cima de mim. É a última coisa que eu ia querer depois de escrever este suado texto.
Mesmo assim o racismo é diário e continua a assolar a Bahia e todo o país. Os últimos relatos são de racismo no futebol. Isso mesmo. Perto de sediar o maior evento de futebol do planeta, o Brasil se depara com o fantasma no esporte e o pior: vêm da torcida as ofensas. Uma vergonha, mesmo não esperando muito de um país onde “Lepo Lepo” é música pra criança dançar e onde a arte é preterida em todos os sentidos – o que está mais fácil vira arte. Falando em arte e mudando de assunto, lembro de Jean-Michel Basquiat, acho que nunca o citei em meus insanos textos, mas agora me veio à cabeça as pinturas dele, desde quando era grafiteiro até se tornar membro do neo-expressionismo.
Da mesma forma me lembro das letras de protesto que o grupo norte-americano Rage Against The Machine canta em suas músicas. Basquiat e o comandante do Rage, Zack de la Rocha, são dois artistas negros que se destacam no cenário mundial. Sem contar outros, não vou nem citar para não ficar aqui enumerando os muitos doidos como Chuck Berry, Ben Harper, Gilberto Gil, Falcão do Rappa, Carlinhos Brown e tantos outros. Só não coloco o Michael Jackson na lista, porque ele ficou branco. Perdão ao trocadilho e à enfermidade do artista já falecido. Perco a piada, mas não o amigo, ou seria o contrário?
E tem uma frase do rap Criolo que diz assim: “O criolo aqui é doido e não aceita mancada / O que penso da família, ainda nela acredito / Deus abençoe meus pais e fortifique meu espírito”. Fortaleça o espírito para assistir o filme 12 anos de Escravidão pra saber melhor o que tento dizer aqui. Mexeu tanto comigo que não sei para aonde ir. Fiquei desorientado quando saí da sessão. Juro que até vontade de vomitar eu fiquei. Marcou minha alma, sem exagero.
Dessa mesma forma que o racismo, a gente assiste os atos de homofobia em todas as áreas de atuação social. Se o racismo ainda é “velado” nos estádios brasileiros e na sociedade, a homofobia, outro tipo de preconceito, talvez menos frequente em outros continentes, tem se tornado cada vez mais explícito nas arquibancadas. Quem nunca ouviu ou viu as torcidas irem para cima dos jogadores de times adversários durante o jogo com os gritos de “viado” ou “bicha”. E esse tipo de manifestação, ao contrário do que ocorre com o racismo, nem mesmo aparece nas discussões. É simplesmente considerado “normal”.
Sem querer me estender e cansar você, cito ainda detalhes do continente africano. Atualmente a África do Sul é o país que mais sofre com a aids. De acordo com dados divulgados em revista de ciência, são 5,6 milhões de pessoas infectadas pelo vírus HIV. O governo tentar conter a epidemia fornecendo remédios antirretrovirais, só que esses remédios estão indo parar nas mãos de traficantes - que os transformam em whoonga - uma espécie de “pó”, uma nova droga que mistura veneno de rato, heroína e efavirenz, um dos principais medicamentos anti-HIV.
Quando li a matéria fiquei estarrecido, a droga é vendida na forma de cigarros que custam algo entorno de R$ 7, preço equivalente ao de um maço de tabacos comuns. Parece que quando é fumada, provoca sensação de euforia. Mas também pode acabar ajudando o HIV, dizia o texto. E aí eu pergunto, quem sofre com esses casos? Nem precisar ser inteligente para responder, os negros. Mas vamos firmes em frente, uma Copa vem aí e essa onda de racismo e homofobia têm que ser extirpada, assim como a violência contra a mulher, a prostituição infantil, o trabalho escravo e outros assuntos que às vezes fazem a gente ter vergonha de ser patriota.
O importante agora é não deixar que esse fantasma volte, porque já perdemos muitos irmãos para a “vala”, para o tráfico, para a intolerância, negando seus direitos, e é fundamental que não queiramos que volte “às atividades do dia: lavar os copos, contar os corpos, e sorrir, a essa morna rebeldia”.
*Vitor Fernandes e jornalista e assessor de comunicação
