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A sociedade da hipocrisia íntima

Por Aline Castelo Branco

A sociedade da hipocrisia íntima
Falar de sexo na mesa de bar, entre amigos, pode. Mas conversar sobre o tema com o próprio parceiro (a) ainda é sinônimo de timidez. Pior quando o assunto cai nas redes sociais e mesmo o tratando de forma séria, sem ser vulgar, vira motivo de chacota e parece que toda humanidade entra numa sinergia de pureza e castidade. É preciso entender que a sexualidade contribui em diversas áreas, como antropologia, história, economia, sociologia, biologia, medicina, psicologia e outras mais.
 
A educação sexual não deve ser tratada como tema transversal, mas sim como uma inclusão entre estudar conhecimentos teoricamente sistematizados (aprender com a realidade) as questões da vida real (aprender na realidade e na prática).
 
Sexo oral, por exemplo. Deve ser feito ou discutido? A maioria dos casais e, isso é comprovado nas pesquisas do Prosex –grupo de estudos da área de sexualidade da USP- não conversa sobre o assunto. Por conta disso, a prática tende a ser pouco satisfatória para um dos dois. Sem diálogo não existe ampliação de conhecimento. Falar de sexo é trocar experiências. É educar seu corpo e conscientizar sua mente. Voltando ao sexo oral, dor, leves machucados, dentes que arranham e falta de prazer são alguns dos problemas citados por homens e mulheres. Então, um curso  específico não seria bem vindo? Se mulheres soubessem verdadeiramente fazer sexo oral, a empresa que revolucionou o mercado Brasileiro com o curso nesse segmento não teria recebido mais de 400 emails de pessoas interessadas. É necessidade e vergonha. Quando associados geram debates acalorados sobre moral, preconceito e prazer. Mas a mesma sociedade que nega e barra a evolução sexual, é a mesma que, na sua escuridão e em seus arcabouços, faz a pior das orgias. Cala-se no íntimo. Subverte-se para sentir. 
 
É preciso entender a sexualidade como um “instinto natural”. Quebrar tabus, como fazia Simone de Beauvoir e Sartre no século passado. Certa vez ela disse: “Encontrar um marido é uma arte; Manter é um trabalho”. Para entender essa difícil tarefa seria bom educar sexualmente, desde cedo, o ser humano.
 
Os jovens devem ser habituados, pelos pais (educação sexual caseira) a encarar as novas descobertas com leveza e seriedade. A escola também deve servir de mentora para as possíveis dúvidas, ou, para formação de direitos privados (educação sexual escolar), mas, sobretudo, é papel do Estado que se diz fundamentado nos direitos humanos apoiar os jovens em sua entrada em uma vida sexual protegida, segura e autônoma, em vez de tratá-la como temível e perigosa (educação sexual pública).
 
Vivemos numa ambiente civilizatório, ao mesmo tempo, conservador no seu íntimo e liberal na sua imaginação. Pessoas imaginam, mas não realizam. Pessoas tem desejos, mas reprimi-os para evitar o julgamento social. Falta em nós compreender que o bom da vida é amar, transar e gozar! 
 
Muitas mulheres brasileiras nunca chegaram ao orgasmo. Uma pena. Preferem viver fingindo. Na sua completa hipocrisia íntima.
 
*Aline Castelo Branco é jornalista, escritora, professora e pesquisadora da área de educação sexual.