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Desafios da reforma política

Por Cláudio André de Souza

Desafios da reforma política
A eclosão dos recentes protestos colocou em evidência os “governados” na conjuntura política, direcionando fortes críticas ao sistema político brasileiro. De maneira geral, tal radicalização atingiu todos os atores político-institucionais. Esta forma multicêntrica de protestar com diversas demandas evidenciou que a sociedade civil é uma “arena de arenas” com múltiplas vozes organizadas em clivagens sociais, culturais e políticas.
 
As mobilizações levaram o governo federal a defender de imediato mudanças no sistema político, ampliando dissensos diante da complexidade que envolve as discussões de especialistas a cidadãos difusos. No entanto, a atitude do governo indica oportunidades que podem resultar em uma representação democrática fortalecida por eleitos e eleitores, assim como na criação de novos marcos institucionais de participação da sociedade nas decisões governamentais.
 
Apesar do fervor das ruas em torno das críticas ao sistema político, as mobilizações foram explícitas, sinalizando também o descontentamento com políticas públicas vitais a “velha” e “nova” classe média urbana (transporte, saúde, educação, segurança, etc.) e gestadas por todas as esferas de governo. As ruas evidenciaram em grande parte o desejo por uma “reforma política” dos serviços públicos sensíveis ao cotidiano dos cidadãos que vivem nas grandes e médias cidades. Nesse sentido, a vontade das ruas não se esgota com a reforma do sistema eleitoral, mas perpassa pelo questionamento de interesses seculares estruturados na política e na sociedade brasileira.
 
Em que pese a rápida articulação do governo federal para responder aos anseios da sociedade, tal êxito reside na adesão ao compromisso em realizar as “reformas estruturais” das ruas, criando um novo ciclo de inclusão social e política ainda mais potencializado do que tem sido nos governos petistas marcados por posições antagônicas no âmbito da representação de interesses.
 
As mudanças clamadas nas ruas tendem a gerar um cenário de ebulição dos movimentos, partidos e governo, todos ansiosos em redesenhar seus projetos políticos diante das novas circunstâncias.
 
* Cláudio André de Souza é mestre em Ciências Sociais da Universidade Federal da Bahia (Ufba) e professor de Ciência Política da Universidade Católica do Salvador (Ucsal) e Faculdade Baiana de Direito.