ESQUERDA, NORDESTE E DESENVOLVIMENTO

Domingos Leonelli
A direita nordestina foi derrotada nos principais estados da região. Apesar de leniente com o grande capital financeiro e condescendente com alguns “coronéis”, o Governo Lula propiciou um grande avanço político da esquerda no Nordeste. A fórmula assistencialista de inspiração neo-liberal do Bolsa-Família, programado para acontecer com FHC, acabou apresentando, no Governo Lula, um resultado positivo surpreendente: libertou, pelo menos momentaneamente, uma considerável legião dos brasileiros pobres e dependentes que compunham os currais eleitorais da direita nordestina. Os pobres do Nordeste não ganharam a plena cidadania que só o trabalho garante, mas saíram do controle dos antigos e novos coronéis. Se isso tivesse ocorrido no governo anterior, como programado e não executado, o PFL nordestino seria, obviamente, o beneficiário e teria de novo consolidado a sua hegemonia regional.
E se Sarney continua “amigo do rei”, seu amigo, ACM, pela primeira vez não teve um ministério na República, experimentando um jejum federal de quatro anos, que ele não conhecia há quatro décadas.
Por essas e outras, desenha-se um novo quadro para a esquerda brasileira a partir do Nordeste: presidente da República, se reeleito, governadores e prefeitos das principais cidades, numa mesma linha político-ideológica. Isso não acontecia desde a ditadura, quando presidente, governadores e prefeitos (em sua grande maioria) estavam militarmente alinhados na mesma posição de sentido.
A verticalização deste outro alinhamento político, da esfera federal ao plano municipal, e os instrumentos econômicos e sociais de governo como BNB, CHESF, BB, CEF, PETROBRAS, SUDENE, CODEVASF e PORTOS, são tão significativos que permitem um questionamento básico: a esquerda está no Governo ou no poder?
Claro que governos, mesmo os governos federal e estaduais, não configuram o espectro completo do poder. Como todos sabem, o capitalismo moderno, o capital financeiro, os meios de comunicação e as usinas estruturais de geração de conhecimento – as grandes empresas e instituições detentoras de tecnologia de ponta – são partes integrantes e hegemônicas do verdadeiro poder.
Mas, não há dúvida que a partir de 2007, se Lula for reeleito, a esquerda será hegemônica em várias esferas de governos e responsável por fatia considerável do poder.
E o poder é usado para conservar ou transformar. Desde sempre. Vale o dilema leninista: “o que fazer?”
Será possível reproduzir, “ad infinitum”, a mágica de conservar privilégios dos segmentos hegemônicos do grande capital financeiro e compensar as faixas mais pobres com o alargamento significativo dos “programas sociais”? Ou avançaremos para a fórmula universal de Gunnar Mirdal, segundo a qual a única forma efetiva de criar e manter os empregos é manter aquecida a economia, ampliando o mercado consumidor e favorecendo as forças produtivas?
E no Nordeste? Saberemos usar o indiscutível peso eleitoral do Nordeste numa eventual reeleição de Lula, para exigir políticas nacionais que produzam desenvolvimento econômico em contraposição à ortodoxia monetarista?
São indagações instigantes – diria até angustiantes – que só nos serão colocadas efetivamente com a vitória de Lula. A vitória de Alckmin manteria as elites nordestinas e brasileiras no mesmo grau de articulação e sintonia que elas possuem hoje, com os segmentos hegemônicos do poder no Brasil. Esta, aliás, é uma das razões de meu pobre e único voto para Lula.
Jaques Wagner na Bahia, Eduardo Campos em Pernambuco, Cid Gomes no Ceará, Marcelo Deda em Sergipe, Vilma Maia no Rio Grande do Norte, propiciarão ao Lula imigrante nordestino, ao Lula do ABC paulista e ao parceiro de Ulisses nas Diretas Já, o apoio necessário para que ele avance mais profundamente na transformação das estruturas econômicas e sociais do Brasil?
A reeleição de Lula pode – ou não – significar para o Nordeste a oportunidade histórica de acrescentar às políticas localizadas e meramente compensatórias, uma política verdadeiramente nacional de desenvolvimento em que os interesses do Nordeste sejam parte integrante dessa política. A produção de biodiesel é um exemplo. A proteção e modernização da indústria têxtil é outra. Para isso os governadores do Nordeste, suas bancadas parlamentares e os intelectuais de seus estados, precisam ser formuladores e executores dessa política nacional de desenvolvimento.
O Nordeste não pode ter como única serventia fornecer aos aliados das elites nordestinas os votos diretos e o apoio parlamentar no Congresso Nacional.
Cabe aos novos governadores e às bancadas nordestinas cobrar essa fatura. Resgatar o conceito, formulado por Rômulo Almeida, da integração soberana.
Domingos Leonelli é secretário de Economia, Emprego e Renda da Prefeitura de Salvador