REQUIESCAT IN PACE*

Ernesto Marques
Falar em morte para nós, ocidentais, especialmente os de formação judaico-cristã, sempre foi um tabu. Mas há um grande “funeral” político em curso – as aspas indicam o uso do termo em sentido figurado, que fique claro – e como observador atento, não resisto à tentação de escrever a respeito. A vitória, para muitos surpreendente, de Jaques Wagner, enseja uma reflexão sobre o que ela representa para a política baiana e nacional. Assim, inspirado pelo significado místico do 13, atrevo-me a escrever a respeito, com a pretensão de não cometer qualquer grosseria com uma pessoa, nem precipitação em vaticinar a morte do que ela representa, enquanto força política.
Morte, no sentido místico, como fim de uma etapa, como transformação.
Admitamos: ninguém é tão coerente em suas práticas como o senador Antônio Carlos Magalhães. Foi, é e sempre será o mesmo, desde os velhos tempos do Campo da Pólvora. Inegavelmente abatido pela derrota, o senador certamente recobrará as energias para voltar à cena com a verve de sempre. Nunca sofreu com o dilema maquiavélico que já dividiu outros príncipes: se é melhor ser amado ou temido. Conseguiu a proeza de ser temido e amado. Amado principalmente pelo temor que inspirava em adversários reticentes e aliados subservientes. Erra quem, por soberba ou qualquer outra motivação, prevê o fim político de ACM. O que nos acostumamos a chamar “carlismo” também está sob os efeitos de uma ressaca eleitoral como não se via há exatos 20 anos, desde a vitória de Waldir Pires, em 1986. Mas, a máquina político-partidária comandada com mão de ferro pelo senador ACM, embora tão abatida quanto o seu líder, está aí, vivinha da silva. Mas irremediavelmente trincada.
O defunto para o qual reclamo os rituais de despedida, portanto, não é o “home” nem o seu grupo. Quem morreu foi o “carlismo”, enquanto prática política, e isso se pode afirmar, sem medo de errar. Por uma cruel ironia do destino, assim como Mozart foi induzido a compor a música do seu próprio funeral, ACM é o compositor do réquiem com que a Bahia sepulta a sua maneira muito peculiar de fazer política. O maestro nunca usou batuta para reger sua orquestra. Coerente, prefere o chicote desde os tempos da política estudantil, na década de 1940. Alternando gestos de simbólica ternura com ações tremendamente violentas, o líder maior do PFL baiano nunca se constrangeu com o apelido de “Malvadeza”. Pelo contrário, sempre soube usar o medo que inspirava para afirmar o poder. Seu staff, ou parte dele, teve de se acostumar com o estilo do Chefe. Tapas no rosto, beliscões, chutes na canela e agressões com palavras impublicáveis, sempre fizeram parte da vida na corte “carlista”. Para vassalos e cortesãos, ainda pior do que receber bordoadas ou broncas em público, era ficar longe desses “afagos.” Ninguém queria ficar longe do Chefe, já que ele era o próprio poder.
ACM cumpre assim, guardadas as devidas proporções, o mesmo roteiro de caudilhos como Rafael Leônidas Trujillo Molina, cuja saga é primorosamente narrada pelo escritor Vargas Llosa em “A festa do bode”. Dono de vaidade e ambição doentias, Trujillo governou a República Dominicana de 1930 a 1961. Mudou o nome da capital do país, de Santo Domingo – assim batizada pelo irmão de Cristóvão Colombo, Bartolomeu, que a fundou – para Ciudad Trujillo. Ele e sua família se apoderaram de 70% do território dominicano, mas o ditador não tinha limites. Segundo a revista americana Time, certa vez baixou um ato proibindo que as pessoas andassem descalças nas ruas da capital.
Assim criou mercado para um novo negócio do clã: o aluguel de sapatos nos limites da cidade. Dono de um estilo muito próprio de tratar os comandados que disputavam avidamente um lugar ao lado do Chefe, Trujillo terminou assassinado, numa trama urdida por adversários e aliados muito próximos.
Enquanto sobrou-lhe poder, não lhe faltaram temor e amor da parte dos súditos. Mas as seguidas derrotas fizeram este poder se esvair como a areia que passa pelo gargalo de uma ampulheta: em 2002, perdeu influência sobre os órgãos federais na Bahia; em 2004, foi fragorosamente derrotado em Salvador, com a eleição do prefeito João Henrique; e agora, perde o governo estadual. Neste meio tempo, perdeu um dos mais aplicados discípulos, o hoje inimigo Antônio Imbassahy, e foi obrigado a fazer concessões ao governador Paulo Souto, com quem teve de compartilhar o comando do grupo. Com o poder em declínio, declinou também a tolerância dos súditos. Cansados dos apupos do Chefe, lideranças interioranas que já foram o alicerce eleitoral do “carlismo”, dele foram se afastando gradativa e silenciosamente. Preferem agora se orientar pela estrela ascendente do petista Jaques Wagner. Resultado: a bancada estadual do PFL e satélites encolheu de 42 para 31 deputados – a maior parte mais leal ao governador Paulo Souto. ACM perdeu os principais defensores na Assembléia: Antônio Rodrigues, Vespasiano Santos, José Tude, Pedro Alcântara, Robério Nunes e Sonia Fontes. A bancada federal, esteio da influência do senador no cenário nacional, também minguou: perdeu uma vaga no senado para o ex-governador João Durval e, para a Câmara dos Deputados, não conseguiu eleger Jairo Carneiro e Aroldo Cedraz.
“Derrotado não fala, espera”, declarou ACM, desolado. Mas o tempo é precioso e corre contra ele. Será necessário falar e muito até o segundo turno, em favor do tucano Geraldo Alckmin, surrado pelo presidente Lula em 1º de outubro. O desafio chega a ser cruel: se não for à luta com vigor, deixará caminho aberto para o presidente ampliar a margem sobre Alckmin. Se encarar mais uma vez o embate direto com Lula e mais uma vez perder, acumulará mais uma derrota para o adversário contra quem desferiu os mais raivosos ataques a cada dia de campanha. Para ter alguma chance de recuperar o poder perdido, é melhor levantar a cabeça e voltar ao front. Se preferir esperar, como recomenda aos derrotados, terá tempo para descansar. Se assim preferir, que *descanse em paz.
Ernesto Marques é radialista, jornalista e diretor da Associação Bahiana de Imprensa