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Abaixa as cordas, Salvador

Por Pedro Castro

Abaixa as cordas, Salvador
Um sucesso e, principalmente, tenho esta esperança, um divisor de águas, o desfile do Afródromo, de Carlinhos Brown,  no domingo de Carnaval, no Campo Grande, reunindo sem cordas Apaches do Tororó, Ilê Ayê, Bankoma, Malê Debalê e Cortejo Afro. No calor da árdua, porém prazerosa tarefa de orquestrar o desfile de 10.000 integrantes e 450 percussionistas, o Cacique do Candeal disparou que “não estamos acostumados a desfilar sem cordas”.
 
Esta iniciativa é uma luz no final do túnel para um Carnaval que é vendido no mundo inteiro pela raiz africana da Roma Negra, e, entretanto, coloca em segundo plano em termos econômico, de marketing e visibilidade os chamados blocos afro, com desfiles em horários quando as câmaras de TV já estão desligadas no Campo Grande. Neste ano foi diferente. O Afrodrómo desfilou em horário nobre, tratando-se das coberturas jornalísticas de todas as mídias instaladas em seus praticáveis, na Passarela do Campo Grande. E o fato do desfile ter sido realizado sem cordas retoma ao espírito do carnaval baiano até os anos 80.
 
Atualmente, a única opção do folião pipoca é esperar as poucas atrações sem cordas, com patrocínios das esferas governamentais. É um esforço louvável do Governo do Estado e da Prefeitura esta iniciativa, mas a sustentabilidade de um projeto como este está atrelada à iniciativa privada, patrocínios, marketing etc.
 
Atualmente, quando passam os blocos com cordas, predominantes e imponentes, o folião pipoca fica naquela situação de desafio da lei da física, segundo a qual dois corpos não ocupam o mesmo espaço. É uma sensação de total impotência, insegurança e desconforto. 
 
E por diversas vezes observei uma situação que é um retrato dessa segregação. Vans estacionavam em Ondina e diversos seguranças uniformizados corriam na direção dos veículos e somente após os seguranças formarem o “Bloco da Proteção”, isolando os ocupantes das vans dos reles mortais, sub celebridades ou endinheirados se dirigiam a seus camarotes. Eu sempre parava para observar se era uma Ivete Sangalo ou Aline Rosa, por exemplo, utilizando deste artifício. Aliás, tratando-se das duas é normalíssimo, diante da popularidade delas. Mas não, pelo menos na minha total ignorância acerca de atores de Malhação ou ex- Big Brothers, por exemplo, eram pessoas totalmente desconhecidas. 
 
E fazendo um parênteses, nada contra os coleguinhas do filão da mídia especializado em “gossips”, utilizando um termo deles bem “in”. Mas é tão provinciano escrever notinhas tais como o ex-BBB fulano de tal participou da inauguração de um badalado camarote, que, vamos combinar, chega a ser ridículo.     
 
Retornando à discussão sobre camarotes e blocos versus pipoca, esta questão pauta a imprensa sempre no Carnaval e não muda praticamente nada, com exceção de iniciativas como a de Saulo, Daniela Mercury e de outros artistas, que abaixam as cordas pelo menos num dia de Carnaval. Nos outros dias, eles têm seus blocos com cordas e no caso de Daniela Mercury um camarote com patrocínios milionários, porque a fórmula que o capitalismo achou para gerar lucros no Carnaval baiano é esta. Nada contra a geração de emprego e renda, pelo contrário, a economia que gira em torno do Carnaval é fabulosa, em torno de 1 bi, contando as atividades indiretas envolvidas. Mas é necessário equacionar esta questão.
 
A opção pelo Circuito do Comércio com os blocos afro sem cordas a partir de 2014 é bastante interessante.
 
O Rio de Janeiro, que sempre rivalizou com Salvador em ternos de visibilidade dos seus carnavais, reinventou a sua festa de Momo. A ocupação hoteleira chegou a cerca de 90% e os blocos correm atrás de seus patrocínios. Este já foi o modelo do Carnaval de Salvador, capitaneado por Armandinho, Dodô e Osmar. O Rio importou a folia baiana de algumas décadas atrás, pois antes da revitalização do Carnaval de rua do Rio, as únicas opções eram assistir ao desfile da Sapucaí, na posição de mero espectador, ou ir aos famosos bailes dos clubes do Rio.
 
Salvador, que tem a “maior festa de rua do planeta”, buscou o caminho inverso. Portanto, em prol da democratização da festa de Momo, nossa proposta é #AbaixaAsCordas,Salvador. 

A geração de renda dos blocos com cordas é vital para a economia do Carnaval e da cidade. A proposta é apenas contribuir para a discussão em prol de mais espaço para o folião pipoca. 
 
* Pedro Castro é jornalista