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Animai-vos povo negro de Salvador!

Por Elias de Oliveira Sampaio

Animai-vos povo negro  de Salvador!
Salvador está sendo a síntese de uma disputa polarizada entre duas forças que vem dirigindo o Brasil nos últimos dezoito anos. O PSDB/DEM de 1994 a 2002 e PT e partidos aliados de 2003 até a hoje. Subjacente ao debate mais geral, e por mais que alguns não queiram “colocar o dedo na ferida”, o pano de fundo que amalgama o debate eleitoral é: qual o projeto político que mais incorporou as demandas históricas povo brasileiro, baiano e de Salvador (os negros, em particular) nas políticas públicas gestadas e implantadas por essas respectivas forças políticas quando elas estiveram no exercício do poder?
 
É indiscutível que foram nos do governo Lula (2003 -2010), seguido pelo governo Wagner a partir e 2007 e nos últimos dois anos do governo Dilma, que vem sendo dada maior concretude, em termos de efetividade da política pública, a um conjunto de elementos que sempre foram tratados de forma abstrata ou categorias sociológicas exógenas as prioridades de governo, como a questão de gênero, dos negros, dos indígenas, dos quilombolas e demais povos e comunidades tradicionais, antes desconsideradas como sujeitos detentores de direitos que deveriam ser garantidos. Ou seja, o perfil da disputa político eleitoral da cidade de Salvador nesse ano, além de histórico, será profundamente emblemático porque estão polarizados dois projetos políticos historicamente antagônicos disputando a prefeitura de Salvador.
 
De um lado está o candidato ACM Neto do DEM, partido que nos últimos anos operou contra todas as políticas públicas voltadas para as questões anteriormente apresentadas, em especial aquelas postas em prática pelo Governo Lula/Dilma e Wagner. Do outro lado, a chapa encabeçada por Nelson Pelegrino  é a que  representa , genuinamente, as politicas do PT - o partido que foi proponente direto ou através de governos e partidos historicamente aliados - dessas politicas que vem transformando  (para melhor) o Brasil nos ultimos anos.
 
Por isso e apenas por isso, que o ACM Neto e o DEM escolheram para sua companheira de chapa uma mulher negra.  A rigor, um olhar sobre a história dessas pessoas e deste partido, desde que ele se chamava ARENA, PDS, PFL, ficaria no vazio, se tentássemos encontrar alguém  - sequer  parecido - com o perfil da sua atual vice, participando de quaisquer ações politicas por eles encabeçadas. Na verdade, a interpretação que temos é que a busca de ACM Neto por uma mulher negra para fazer uma aliança eleitoral, nos sugere que ele teve uma necessidade freudiana de aplacar o seu sentimento de culpa por ser ele, o próprio candidato, e o seu partido, os principais articuladores dos mais violentos ataques às políticas de ação afirmativa implementadas pelo Governo Lula, contra os sistemas de cotas para negros nas universidades, contra o PROUNI, contra o Estatuto da Igualdade Racial, através do senador cassado Demóstenes Torerres e o decreto 4887 que estabelece as políticas para defesa e o desenvolvimento das comunidades quilombolas: ações explicitamente contra a maioria do povo brasileiro. Talvez por estarem sendo paulatinamente derrotados nas suas pretensões desde o inicio do governo Lula - ACM Neto, o DEM e o seus, - vislumbraram na aproximação de uma mulher negra uma única alternativa para que eles pudessem, pelo menos, se apresentar de uma forma aparentemente menos contraditória aos interesses da maioria da população de Salvador, alias,  contraditórios como eles sempre foram durante os mais de quarenta anos em que tiveram hegemonia política no governo do Estado e da capital.
 
Na chapa encabeçada por Nelson Pelegrino do PT, a situação é totalmente oposta. Primeiro, porque ela reúne praticamente todos os partidos da base do Governo Wagner e do Governo Lula/Dilma, em especial, os partidos que historicamente têm marchado juntos num projeto político que vem sendo desenhado desde a ditadura militar e que congregam quase a totalidade de militantes e organizações do movimento negro e de lutas antirracistas, as quais, não só foram base importante de sustentação do governo federal e estadual nesses últimos onze anos, como foram, os principais atores a desenhar e sustentar as políticas de ação afirmativa e garantia de direitos, no nível federal e estadual. Saliente-se: a presença de uma mulher negra na chapa majoritária encabeçada pelo PT, não é nem uma jogada de marketing eleitoral  e muito menos uma tentativa de trazer para a disputa algo que fosse estranho ao projeto político do PT e de seus aliados históricos. Ao contrário, a presença de Olivia Santana junto a Nelson Pelegrino nada mais é do que um desdobramento natural de uma parceria histórica entre os partidos que eles representam, e corolário das próprias políticas do PT e dos partidos historicamente aliados no que diz respeito ao empoderamento da maioria da população do Brasil e da Bahia, que vem sendo construída há muito tempo e a Cidade de Salvador não pode perder essa oportunidade.
 
Aliás, como diziam os Heróis da Revolta dos Búzios na Conjuração Baiana, Animai-vos povo bahiense que esta para chegar o tempo de todos sermos iguais, todos sermos irmãos.
 
* Elias de Oliveira Sampaio é secretário estadual de Promoção da Igualdade