Modo debug ativado. Para desativar, remova o parâmetro nvgoDebug da URL.

Usamos cookies para personalizar e melhorar sua experiência em nosso site e aprimorar a oferta de anúncios para você. Visite nossa Política de Cookies para saber mais. Ao clicar em "aceitar" você concorda com o uso que fazemos dos cookies

Marca Bahia Notícias
Você está em:
/
Artigo

Artigo

FAÇA O QUE EU DIGO, MAS NÃO FAÇA O QUE EU FAÇO


Marta Castro Luzbel

É comum que empresas, e até mesmo o Governo, terceirizem a execução de projetos sociais para as chamadas Organizações Não Governamentais, às quais delegam a aplicação dos investimentos sociais privados e públicos. Delas, são cobrados profissionalismo e resultados. Acontece que a elas não têm sido dadas condições mínimas de sobrevivência. E o pior é que ainda chamam isso de parceria...
Dizem que as Organizações Não Governamentais estão passando por uma crise de imagem, resultante do envolvimento de algumas instituições em esquemas de uso indevido do dinheiro público. A meu ver, a imprensa sensacionalista e a opinião pública tendem a generalizar injustamente as acusações de “pilantropia”. Graças ao trabalho de ONGs sérias (e a Bahia tem inúmeros exemplos), milhões de pessoas têm acesso à educação, à saúde, ao esporte, à cultura e à assistência social.
A crise das ONGs é outra. Trata-se de uma crise de sobrevivência, como a dos mais carentes dos seus beneficiários. Ela começa justamente na relação com seus financiadores, que só querem investir em projetos, como se estes se auto-gerissem. A maioria dos apoios não contempla recursos para o custeio das instituições, ou seja, dinheiro para pagar energia, aluguel, condomínio, telefone, impostos e, até mesmo, pessoas.
Para contornar esta situação, as organizações podem gerar receita por meio da prestação de serviços ou venda de produtos. O tema é controverso. Há quem diga que esse tipo de ação desvia a atenção da missão social da instituição. Eu diria que os fins justificam os meios. E diria mais. Não tem nada pior para tirar o nosso foco de atenção do que não poder pagar as nossas contas.
No entanto, o caminho encontrado pela maioria das ONGs tem sido outro e vai de encontro a tudo que pregam. Por exemplo, se financiam com recursos de outros projetos, correndo o risco de “quebrar”, caso não haja uma renovação de convênio ou a captação de recursos para uma nova ação. Praticam também a divisão destes custos pelos diversos projetos, fazendo uma verdadeira ginástica para alocá-los nas rígidas rubricas.
O exemplo mais grave está relacionado à área de pessoal. É que dificilmente as ONGs assinam a carteira de seus profissionais. Geralmente as contratações acontecem por intermédio de empresas de assessoria e consultoria, constituídas para fins de remuneração. Os contratos são por projetos (sem garantia de renovação) e os honorários geralmente são baixos. Não é à toa que as ONGs são hoje alvo de causas trabalhistas e processos oportunistas.
A gestão por projetos dificulta a capacidade de atrair e reter talentos. Os desafios são crescentes e a instabilidade é enorme. A rotatividade só não é maior porque quem atua nesta área é apaixonado pelo que faz. São profissionais que não se incomodam em entrar pela noite ou pelo final se semana para ajudar a quem precisa. E aí reside outra idiossincrasia: essas pessoas trabalham pela qualidade de vida dos outros e dificilmente zelam por sua qualidade de vida.
Para complicar ainda mais a situação, o crescimento do chamado terceiro setor resultou no aumentou da disputa por apoiadores e patrocinadores. Aumentou também a qualificação desses doadores, que passam a exigir profissionalismo nas relações. Para corresponder, as ONGs precisam fazer capacitação em gestão e realizar investimentos em tecnologia, mas praticamente não existem linhas de financiamento para desenvolvimento organizacional no Brasil e as que existem são de fundações estrangeiras que aqui atuam.
Longe de ser uma crítica às ONGs, estas palavras são um convite à reflexão e a busca de soluções conjuntas, sob pena de perdermos o apoio das organizações da sociedade civil e sucumbirmos de vez ao caos social.

Marta Castro Luzbel é administradora de empresas e especialista em Marketing, responsável por Relações Institucionais na Fundação Odebrecht, professora universitária e voluntária em diversas instituições sociais.