O discurso do velho jovem ACM
Tudo bem que o candidato do DEM condene o discurso do alinhamento entre as três esferas de poder, como argumento da campanha de Nelson Pelegrino – era esse o discurso do seu avô quando perdeu a eleição para Lídice em 1992, e durante sua prolongada hegemonia. Mas quando ele avança na argumentação, lança umas tantas pedras para o alto, que certamente lhe acertarão a ca...beça. A primeira que lhe acerta o “cucurute” em cheio é quando alega prática de chantagem. Ora, se alguém não lembrar, certamente será fácil resgatar gravações do velho ACM advertindo o povo de Salvador em tom de ameaça, às vésperas daquelas eleições: “o erro de um dia se paga em quatro anos”. Dito e feito. Como o povo soteropolitano escolheu Lídice, ele sabotou a cidade por quatro anos, sitiou a prefeita com seu império midiático e fez toda malvadeza que pode a partir do jugo que impôs a Salvador e demais municípios baianos.
Risível o discurso do novo ACM, em sua convenção: “não quero que Salvador, eternamente, tenha que passar o pires pedindo 'pelo amor de Deus' ao governo do Estado ou federal”. O poder do “carlismo”, quando perdeu os coturnos dos ditadores de 1964, calçou chuteiras de birro para ameaçar as canelas de quem ousasse jogar em outro time. Serviu-se como ninguém do nosso pacto federativo torto e da nossa estrutura tributária nunca reformada. Sob o tacão do velho, as transferências de recursos para as prefeituras dependiam de convênios, assinados apenas quando e com quem El Rey queria. A seca, nossa velha conhecida, sempre foi sua aliada na prática deslavada da chantagem apoiada sobre a pobreza da nossa gente. E ai do prefeito que não se curvasse por um conveniozinho...
Para falar especificamente de Salvador, dois dados reveladores: Soterópolis foi a última capital a alcançar gestão plena da saúde, já no início do primeiro mandato de João Henrique. Naquela altura, o número de matrículas de ensino fundamental (responsabilidade do município) nas escolas estaduais era MAIOR do que na rede municipal. A cidade vivia refém da chantagem institucionalizada pelo velho ACM, dependente, portanto, do governo estadual para ter um mínimo de serviços de saúde e educação. Nas demais áreas, quando não era socorrida pelos tais convênios, a Prefeitura de Salvador se acudia com a Conder. Não por acaso se dizia que a nossa prefeitura equivalia a uma secretaria do governo estadual.
Mas é bom que o novo ACM lance essas pedras para o alto. Cada uma que lhe cai sobre a moleira revela a semelhança de costumes e prática política entre os dois. O coronelismo repaginado, o culto à personalidade que o “novo” renegou nas eleições de 2008 e a arrogância geneticamente transmitida não dão qualquer margem a dúvidas: é mais de um mesmo que já conhecemos e deixamos para trás.
* Ernesto Marques é jornalista e militante do PT da Bahia
