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Mobilidade e caos urbano

Por Adilson Fonsêca

Mobilidade e caos urbano
Qual foi a última grande intervenção do poder público, estadual ou municipal no sistema viário de Salvador? Talvez respondendo a esta pergunta, e ao descobrirmos o alcance da sua resposta, possamos entender o caos diário que é trafegar, quer seja na condição de motorista ou de passageiro, em Salvador.

Data de dezembro de 2001, com a inauguração das avenidas Luiz Eduardo Magalhães e Gal Costa, ligando a Avenida San Martim à Avenida Paralela (LEM), e a Paralela à BR-324 (Gal Costa). Foi a última vez que se fez algo em termos de intervenção significativa no sistema viário da cidade, sendo que a Avenida Gal Costa, apesar de inaugurada, nunca foi concluída, e a Luís Eduardo Magalhães jamais teve a sua ligação efetiva com a BR-324.

Àquela época, Salvador tinha uma população, segundo dados do IBGE, de 2.443.107 habitantes, contra os atuais 2.675.650 (dados de 2011).  Na prática são 232 mil habitantes a mais para conviver no mesmo espaço de 11 anos atrás. É como se nesse período, toda a população de Camaçari  viesse a morar na capital, ocupando o pouco que ainda resta de espaço físico vazio e dividindo com os soteropolitanos os mesmos problemas.

Já a frota de veículos passou de  436.279 em 2001 para 726.430 em 2010, um aumento de nada menos que 290.121 novos carros circulando pelas mesmas ruas e avenidas. E, também, é como se toda a frota de veículos de Feira de Santana, a segunda maior cidade do estado, estivesse circulando pelas ruas de Salvador. Todos juntos ocupando os mesmos espaços. Fica fácil entender o porquê de tantos engarrafamentos, que resultam em estresses gerais, de quem dirige, de quem viaja e de quem anda a pé pela cidade.

Não dá para imaginar, quando falamos de acessibilidade urbana, copa do mundo e das confederações, metrôs, etc., um cidadão passar de duas a duas horas e meia dentro de um ônibus no trajeto de casa para o trabalho, e fazer esse mesmo percurso e tempo, no retorno para casa. Na prática cinco das suas horas diárias esse cidadão passa dentro de um ônibus. Estresse total. Ou horas presos em engarrafamentos que aparentemente não teriam razão de existir. A tensão aumenta nos dias que antecedem uma possível greve dos rodoviários, que invariavelmente ocorrem todos os anos durante o mês de maio. Tem sido assim invariavelmente todos os anos, sem maiores perspecti9vas de mudança.

Hoje o estrangulamento do sistema viário se espalha por toda a cidade, do centro à periferia, dos locais mais centrais como o Iguatemi, a inimagináveis há alguns anos, como Águas Claras. Duas importantes avenidas – Gal Costa e a Via Regional – permanecem com obras inconclusas. A Avenida Gal Costa foi inaugurada em dezembro de 2001, e custou à época R$ 18 milhões, e deveria fazer a ligação da Avenida Paralela à BR-324. De um lado, termina a pouco mais de 200 metros da Paralela – nos portões da Estação Elevatória de Tratamento de Esgoto da Embasa, em Pituaçu. Do outro lado, chega até a Estrada da Mata Escura, a cerca de um quilômetro da rodovia BR324. Não foi concluída.

Já a Via Regional, cuja função era a de ligação da Avenida Paralela, através da Avenida San Rafael, à BR-324, na altura do bairro de Águas Claras, teve as obras paralisadas em 1985. Faltam pouco mais de 500 metros para chegar à BR-324. Abandonada, teve o seu leito asfáltico ocupado por cerca de 400 casas. hoje o acesso à BR-324 tem que ser feito por uma via estreita que passa por dentro do bairro de Águas Claras. A Via Regional chegou mesmo a ser incluída nos projetos do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) para Salvador. Em 2007. Nada mais se falou sobre o assunto.

Uma terceira avenida, batizada de 29 de março e/ou Via Atlântico, ligando a BR-324 à Paralela e desta até a Orla, está nos planos mirabolantes tanto da Prefeitura colmo do Estado. Mas continua no papel. Como no papel ou nas concepções futuristas, continuam os projetos do metrô (este desde 2000), e do trem suburbano/metropolitano, que depois de décadas ligando Salvador a todo o interior do estado, foi literalmente “barrado” no bairro de Paripe, a 13 quilômetros da sua linha inicial, na Calçada, onde os trilhos foram arrancados e um portão fechado indica que ali o trem não tem como passar.

Temos ai, por baixo, pelo menos 11 anjos de atraso no nosso sistema viário, com grandes reflexos no cotidiano da população. Mas mesmo assim teremos, daqui a pouco mais de dois anos, o maior evento esportivo do mundo que exigirá mobilidade urbana moderna, mas também mobilidade dos nossos gestores para desengavetar projetos e tocar obras necessárias à cidade. Enquanto isso não chega, vivemos os problemas do dia a dia nos ônibus, nos automóveis ou andando a pé por esta cidade, entre o mundo virtual das  idéias e projetos, e o mundo real do estresse e do caos.


* Adilson Fonsêca é jornalista