Para onde vai o Carnaval de Salvador – 2ª Parte
O texto publicado anteriormente com esse mesmo título, obteve um significativo retorno e no seu esteio aconteceram muitas contribuições de amigos, conhecidos e de pessoas que de forma direta ou indireta, se envolvem como profissionais e como amantes do Carnaval de Salvador, conhecida como a maior festa de participação popular do mundo. Por isso a motivação de continuar desenvolvendo o assunto, através de determinados aspectos, bastante significativos para compreensão desses movimentos, e que, em um olhar mais generalista podem passar despercebidos.
A sensação do folião, soteropolitano ou não, nas ruas de Salvador, mais exatamente no percurso envolvendo Campo Grande, Avenida Sete, Praça Castro Alves e Avenida Carlos Gomes de pertencer a alguma coisa, estava representada em um bloco de pessoas, que brincavam e pulavam juntas, se fantasiavam juntas com a mesma idumentária e que formavam um cordão, posso assim afirmar.
Nesse momento imperavam batucadas, instrumentos de cordas e sopro e a voz do folião cantando as músicas que se faziam presentes na cabeça do folião. O trio elérico, genial invenção mais que cultuada e reverenciada por toda socieade, pela dupla Dodô e Osmar, não aparecia toda hora e a qualquer momento como nos dias de hoje. Suas aparições eram esporádicas, e quando surgiam, o público sempre respondeu de forma mais do que positiva, demonstração coletiva de felicidade.
Com o passar do tempo, os blocos creseceram, se organizaram, e com a multiplicação de trios, introduziram o trio elétrico com bandas para tocar para os seus associados. Contudo, em momento anterior, as atrações musicais que estavam no trio, tocavam e nem sempre cantavam, já que a propagação da voz em um trio foi em um momento posterior, para os foliões em geral, estando eles em cordões ou cordas ou não.
A chegada ou saída de um trio, sempre foi uma apoteose. Todos se rendiam aquele som poderoso tocando musicas que enfeitiçavam e continuam enfeitiçando a alma e o corpo dos foliôes. Entendo que, dessa observação, o poeta, cantor e compositor Caetano Veloso nos possibilitou com tanta propriedade: “atrás do trio elétrico só nao vai quem já morreu...”
O bloco de pessoas, ou cordão de pessoas, quase sempre se faziam perceber com a corda, não tão fortes e grossas, e com tantos nós que atam e desatam a depender da situação vivenciada no momento, como nos dias de hoje. Elas apenas definiam os grupos de fantasiados, mascarados, travestidos, etc... e eram de uma simplicidade primária quando comparadas às que hoje ampliam e diminuem espaços conforme necessidades e conveniências.
Mas já eram as cordas. No princípio do seu uso, é bom lembrar, não havia a polêmica estabelecida nos dias de hoje, que sempre são colocadas, como apropriação de espaço público ou como instrumento de diferenciação social e econômica. Era um instrumento que deixava mais claro aquele bloco de pessoas, ou aquele cordão o grupo carnavalesco. E assim iam os palhaços, os mascarados, os arlequins, Os Fantasmas, bloco esse que inclusive, depois de seu desmanche, deu origem a um rivalidade histórica no Carnaval de Salvador: O surgimento dos Corujas e dos Internacionais. Esses dois, resultado de dissidências dos Fantasmas, segundo historiadores.
Essa lembrança histórica da corda, me foi oportunizada por Pedrinho da Rocha, publicitário e artista gráfico, mestre dos aerográfos que acompanhou de forma mister, não só a evolução da tecnologia necessária para a produção de campanhas e fantasias que observamos nas ruas de nossa cidade, e que por isso mesmo mantém o altíssimo nível de suas criações, como também a evolução do carnaval como evento, sendo ele um folião experiente e um observador que coloca nas ruas, suas idéias a bastante tempo.
A imagem da corda, começa a ser alterada a partir da introdução do trio aos blocos, e de atrações musicais que tocavam para os seus associados. Foi uma época sem estruturas de transmissão ao vivo para emissoras de televisão e sem camarotes. A estes últimos se assemelhavam algumas varandas e marquises de prédios e casas situadas na avenida sete.
Nelson Cerqueira, estudioso e observador do Carnaval, em seu livro, Carnaval da Bahia, um registro estético, 2002 já citava, sobre o formato empresarial dos blocos que começaram a usar e também nasceram usando o Trio Elétrico: “Quem parece assumir, na dianteira, esse vetor de empresarização e modernização é o novo tipo de bloco de trio que se multiplica a partir do final dos anos 70. É o caso do Camaleão (1978), Cheiro de Amor e Eva (1980), Pinel (1981), Beijo e Tiete Vips (1982), Mel (1983), Pike (1985), Crocodilo e Frenesi (1987), Pinote (1989). Dá-se uma distinção entre o bloco e a banda. A integração se dá profissionalmente por contrato.”
O surgimento da maioria desses blocos se deu através de pessoas ou grupos de pessoas com uma história de convívio social comum. Nelson Cerqueira também afirmou. “Pouco a pouco, os blocos de trio se organizam de forma empresarial. As diretorias que haviam resultado quase sempre de amigos, colegas de faculdade ou vizinhos, quando não parentes, procuram incorporar – ainda lentamente – recursos modernos no sentido de administrar o patrimônio e planejar a participação no carnaval”.
Compreendemos então o crescimento dos cordões contando, conforme já citado, com o poder aglutinador do trio elétrico. As cordas então começavam a crescer para dar uma definição de bloco de pessoas que querem pular e brincar juntas o carnaval, e comportar número de associados desses blocos com mais de 1.000 pessoas.
Posso atestar que o Cerveja & Cia, em seu segundo desfile oficial, no ano de 1992, já tinha em suas cordas, 2.500 associados.
E daí, chegamos aos dias de hoje, onde a corda faz presente em um cenário mas complexo e complicado por um fator observado claramente aos olhos de todos, inclusive da gestão pública municipal e estadual, que é o aumento exponencial de público. A cidade, além de multiplicar seus habitantes, atrai milhares de turistas para a festa. Os atuais principais circuitos do carnaval se deparam com a falta de equilíbrio da quantidade de pessoas para o espaço físico possível. É a chamada capacidade de carga. Isso ainda é uma situação potencializada pela existência de uma quantidade enlouquecedora de ambulantes e de alguns espaços tradicionalmente disponíveis ao folíão, que deixaram de ser como a encosta do Morro Ipiranga, a área de estacionamento do antigo Clube Espanhol e a área asfaltada na frente do quartel da Aerounáutica em Ondina, sem falar de alguns becos tomados por barracas fixas dos ambulantes.
Percebe-se aí, uma luta por um espaço, que antes era farto, e não mais o é! E as equipes de segurança dos blocos, passam adotar uma postura ostensiva na gestão do deslocamento da corda, processo que não é fácil, quando se tem que deslocar, o mais harmonicamente possível alguns milhares de indivíduos nos asfalto, dançando, pulando e bebendo...
Ildázio Tavares, vem discorrendo sobre o assunto e entende que o bloco de carnaval se tornou um sub-produto. Uma plataforma para apresentações de bandas , que por sua vez não se renovam como deveriam ou poderiam. Defende ainda o fim dos abadás como instrumento de controle e das cordas.
Acredito que sua visão quanto aos blocos é corretíssima. O que era o principal produto do Carnaval de Salvador, é uma estrutura que perdeu quase todo brilho e servem de palcos para apresentação de bandas. A fila determinada pela ordem de antiguidade, vem dando para alguns blocos ainda algum folêgo, vide o fato de alugarem esse palco para algumas atrações. Contudo, não acredito que se deva acabar os cordões ou as cordas, nem o abadá, que vem preencher o lugar da fantasia. Entendo que os blocos podem resgatar o fortalecimento de sua imagem institucional, através de uma trabalho de base com seus associados e com o público em geral. As cordas devem continuar, porém diferente desa feição ostensiva de exclusão que incorporou de um tempo para cá.... Deve er uma corda mais amigável e respeitosa com todos, associados ou não dos blocos, compreendendo que o carnaval não pode perder o contexto de ser uma festa popular. Deve deixar de representar poder econômico e social, e voltar a definir um espaço em deslocamento de grupos de pessoas que querem pular juntas, sob determinado tema e fantasia, e embaladas por alguma atração musical.
Tal situação é observada, hoje em dia no carnaval do Rio de Janeiro. Um carnaval de rua, onde o que importa, é saber em que bloco você está, ou a que bloco você vai seguir.....As fantasias são tematizadas, mas necessáriamente não são iguais. Se adequam a um tema ou a uma cor e se possibilita várias leituras artísticas da mesma. É o exemplo do Sovaco do Cristo entre outros....
Vemos nesse movimento do Rio, diferenciado do desfile das escolas de samba, algo que já foi comum nas ruas de nosso carnaval.
No ímpeto de uma maior organização, e de maior rentabilização para as iniciativas empresarias, e para a própria arrecadação pública feita pela gestão municipal, nosso carnaval estagnou. A crítica ao modelo vigente é muito significativa e vem do sentimento do soteropolitano de exclusão desse modelo.
Continuo acreditando que algo diferente e inovador vai acontecer. Alguma mudança que permita a inclusão do cidadão soteropolitano no evento de uma forma mais pessoal e envolvente do que a que aí está. Percebo que isso vem se transformado em um posicionamento de nossa sociedade. Que o cidadão soteropolitano volte a sentir a sensação de pertencimento pra alguma coisa, para um bloco, para um grupo de pessoas. Entendo ser necessário o trabalho outrora tão bem executado por delegados, comissários e diretores sociais dos blocos. Tenho dificuldade em compreender a razão da falta desse trabalho hoje, no cenário que se apresenta.
Reafirmo a impossibilidade de enterdermos a extensões de alterações desejadas e as que são possíveis de serem implementadas. Esse é um cenário muito complexo com forças macro-ambientais diversas, diferentes embora entrelaçadas. Alguns nós, dessa rede, acredito, são muito difíceis de se alterar.
Necessário tempo e paciência. Necessário muito diálogo e que os principais atores vislubrem o benefício do todo, e não apenas a obtenção de resultados pessoais. É preciso que se verifique as Oportunidades e as Ameaças que temos, do que podemos e do que queremos, sempre com o intuito de revitalizar nosso Carnaval. Essa é uma equação que embora equilibrada, complexa na sua análise. Devemos observar os cenários que se apresentam de forma fria e imparcial. Acredito que temos grandes oportunidades, porém pairam grande ameaças. Acredito que a oferta e novas possibilidades ao cidadão soteropolitano, visando uma maior participação do mesmo, se constitui hoje em uma grande oportunidade para voltarmos a valorizar o necessário espírito lúdico do nosso carnaval. Acredito que aí está a verdadeira alma de nosso carnaval.
Necessário tempo e paciência. Necessário muito diálogo e que os principais atores vislubrem o benefício do todo, e não apenas a obtenção de resultados pessoais. É preciso que se verifique as Oportunidades e as Ameaças que temos, do que podemos e do que queremos, sempre com o intuito de revitalizar nosso Carnaval. Essa é uma equação que embora equilibrada, complexa na sua análise. Devemos observar os cenários que se apresentam de forma fria e imparcial. Acredito que temos grandes oportunidades, porém pairam grande ameaças. Acredito que a oferta e novas possibilidades ao cidadão soteropolitano, visando uma maior participação do mesmo, se constitui hoje em uma grande oportunidade para voltarmos a valorizar o necessário espírito lúdico do nosso carnaval. Acredito que aí está a verdadeira alma de nosso carnaval.
* Paulo Mello é turismólogo, administrador, publicitário, artista plástico e professor universitário.
