Para onde vai o Carnaval de Salvador
Quando as cadeiras das famílias imperavam como lugares marcados na Avenida Sete, para observarem e curtirem o carnaval, eu era garoto, e não via muita graça naquela confusão toda. Lembro do frisson que causava, a passagem dos blocos masculinos Internacionais e Corujas.
Final da década de 70 e início dos anos 80, onde eu ouvia falar muito do Bloco do Barão, surgem como estruturas mais organizadas e inovadoras, frutos de recortes sociais da cidade, que inclusive brotavam também de alguns colégios tradicionais como o Maristas e Antônio Vieira alguns blocos de carnaval. Era o surgimento do Camaleão, e logo depois do Eva e Cheiro de Amor. O interesse pessoal naquilo que já nominei de confusão, já era total.
Compreendo então que, a festa do Carnaval, neste trinta e poucos anos passa por ciclos, todos eles percebidos como retratos não muito exatos de nossa sociedade, difíceis de interpretar, mais que acontecem e promovem alterações que determinam novos procedimentos das instituições que exploram (positivmente e negativamente) o Carnaval de Salvador.
Já se fala, há algum tempo que o modelo atual do Carnaval Soteropolitano, baseado no binômio bloco/corda e camarotes estagnou. Observa-se um nível crítico da sociedade bastante elevado, independente da qualificação técnica da crítica. As redes sociais tem potencializado e contribuído com esse fenômeno. Esse ano observamos uma manifestação popular contra um determinado empreendimento de camarote, pelo fato de ser instalado em local público, que teve grande repercusão, e episódios pré-manifestação que foram parar na justiça.
Vivemos uma época onde a sociedade vem valorizando práticas ambientais sustentáveis, vem pedindo a diminuição das desigualdades sociais e clamando por mais justiça. Evidentemente o Carnaval e suas instituições são influenciados por esses fatores. Neste carnaval de 2012, observou-se um aumento expressivo de artistas, e artistas/blocos que se programaram para desfilar um dia ao menos sem as tradicionais e polêmicas cordas. Tocaram para o folião pipoca. Em paralelo houve um resgate de atrações da música baiana que ficaram pelo caminho do sucesso antes alcançado, mas possuem lugar cativo no coração dos foliões, principalmente do Soteropolitano, como Buck Jones, Xéxeu, Ninha, entre outros. Pergunta-se porquê? Que movimento é esse? E o que vai acontecer?
Percebo o início de um novo ciclo no Carnaval de Salvador. Um ciclo advindo de necessidades do folião Soteropolitano, que deixaram de ser atendidas por forças mercadológicas. E é algo que entendo que já ocorreu antes. É a necessidade da referência de onde você está para o folião e que os blocos deixaram de oferecer! Seria a resposta do que exatamente você está fazendo parte! Registre-se o fato que para o folião que vem de fora, os tão desejados turistas, essa referência não possui quase nenhuma importância. E é fato que, já de algum tempo, é difícílimo para o Soteropolitano encontrar pessoas conhecidas nos blocos de ticket médio mais elevado no Carnaval.
Lá no início dos anos 80, os blocos, como já citado, eram retratos de recortes sociais de Salvador. Era um local de encontro de amigos, e dos amigos dos amigos. O Carnaval começou a tomar uma dimensão econômica fantástica e os blocos começaram a se aproveitar dessa evolução. Foi um ciclo que permitiu a algumas instituições carnavalescas a se estruturarem econômicamente e a se fortalecer politicamente. Se percebia uma interesante vocação empresarial de alguns blocos de carnaval. Nessa época o defile se concentrava na avenida, a partir do Campo Grande, nos dias de domingo, segunda e terça.
No final dos anos 80, começei a perceber uma inquietação com aquele modelo. E de espaços não aproveitdos. Fazia parte inclusive dela. As ruas da Barra, já determinadas como novo circuito carnavalesco e que tinham seu fluxo com origem em Ondina e final no Farol da Barra, ficavam repletas de pessoas, que entendo anseiavam por algo novo. Possuiam necessidades não atendidas. Estavam começando a ficar a margens dos blocos, que nesse momento, fruto da repercusão econômica do carnaval, e já não estavam dispostas a pagar o preço cobrado pelas mortalhas que eram a fantasia usada nesta época.
Fiz parte de uma inovação do Carnaval, que foi uma ré-leitura dos grandes blocos de cordas naquele momento. Foram os chamados blocos alternativos. Participei da nominação e da conceituação dessa possibilidade que surgiu resgatando um trabalho que estava deixando de ser feito, que era o trabalho social como aglutinador de público para os blocos de Carnaval. Fui fundador e sócio do Cerveja & Cia, que juntamente com As Acadêmicas, trouxeram possibilidades de diversão mais econômicas aos foliões, em dias onde os blocos mais organizados não saiam ou desfilavam. Ano seguinte, vindo de Feira de Santana, chega o Qual É?! Um pouco depois ainda o Eu Vou!!! Registre-se ainda experiências positivas anteriores com o Fecundança e As Maluketes. O embrião do Cerveja & Cia, no seu primeiro momento foi baseado no modelo de As Maluketes.
Deu certo por um motivo simples: Estávamos atendendo a um anseio de parcela da população por opção de qualidade mais barata dentro do carnaval e fazendo a inclusão de diversas pessoas que colaboravam com os blocos de forma indireta, trazendo sempre amigos e conhecidos para os eventos durante o ano inteiro. Demos início a um ciclo de ocupação de todos os dias de carnaval, de forma gradativa, no modelo que hoje passa a ser questionado. Observa-se que aos poucos, novamente o trabalho social voltou a ser desconsiderado e voltou a ficar de lado.
Daquele momento até hoje, nosso Carnaval teve novos impulsos, principalmente no que tange a chegada de novas pessoas de fora, como a transmissão ao vivo por grandes redes de televisão, fato que gerou a obtenção de maiores patrocínios, inclusive pela administração pública municipal. Os camarotes se instituiram, e abriram um novo filão a ser explorado, agregando serviços inpensáveis a pouco tempo atrás ao nosso Carnaval. O Circuito Barra-Ondina se fortaleceu e a antiga, tradicional e tão disputada passagem na Av. Sete e na Carlos Gomes saindo do Campo Grande entrou em colapso. Bandas e Artistas como Daniela Mercury, Asa de Águia, Claudia Leite pasaram a se apresentar só no circuito mais novo, além
de outras iniciativas como Chiclete que passaram a se dividir.
Porém chegamos a um momento em que o modelo volta a ser questionado. Ricardo Chaves aponta como falta de foco das pessoas que fazem o Carnaval um pouco da atual situação. Fica mais fácil para Ricardo Chaves observar isso, considerando o fato de estar fora do time de atrações dos blocos de carnaval, independente de sua inegável qualidade como artista. Está descontaminado, por não estar envolvido nos interesses vigentes e mais livre para observar com maior propriedade. Critica o abandono do público do chão, dentro e fora das cordas dos blocos, em favor do público dos camarotes e das atenções da mídia. Acredito ter razão. Porém acredito que não é só isso.
É notório o crescimento de manifestações em dias não oficiais do Carnaval. O Bairro da Barra começa a ficar bastante povoado nas terças e quartas pré abertura da festa, com mais de vinte cordões antecedidos ou precedidos por shows e charangas, e é um movimento fortalecido por novos recortes sociais, que vêem nessas manifestações, um prazer maior em sair e brincar no que nas opções tradicionais. Não é um fato isolado. Observe-se o movimento de carnaval de rua no Rio, com seus blocos e cordões populares, aparecendo como opção ao desfile de escolas de samba.
Percebo a vontade da população na volta do lúdico, da brincadeira espontânea e de uma liberdade de expressão. Além disso, outros movimentos me parecem muito interessantes. O mini-trio fez uma camapanha aberta nas redes sociais para arrecadar fundos para viabilizar sua saída no carnaval. Teve apoio de uma agência de propaganda, e obteve êxito em sua tarefa. Fui verificar e senti claramente o sentimento de inclusão do excelente público que acompanhava a sempre inusitada atração. A satisfação do público se sentia de longe.
Não podemos dimensionar a extensão das transformações que podem acontecer. Contudo, acredito, desconhecendo a profundidade de alterações e mudanças, vai imperar a relação do artista de seu bloco com seu folião dentro das cordas e do folião pipoca, fora das vistas da mídia e independente da observação dos camarotes. Acredito que o Carnaval na prática, vai se fazer perceber, independente da data de abertura oficial, desde o sábado da semana anterior com propostas que considerem e trabalhem os recortes sociais existentes, que independente do leque de possibilidades que existem, não se sentem atendidas em suas necessidades de manisfestação popular e lazer. Proposições criativas, mesmo que segmentadas tem grande chance de obter sucesso, e acontecendo irão agregar bastante valor à este Carnaval.
Paulo Mello é turismólogo, administrador, publicitário, artista plástico e professor universitário.
Paulo Mello é turismólogo, administrador, publicitário, artista plástico e professor universitário.
