João, o inimputável
Estupefato, mas não exatamente surpreso, vi declarações do prefeito João Henrique no site Bahia247, classificando os ativistas do movimento DESOCUPA como “alguns desocupados”. Natural que Sua Excelência não tenha simpatia pelo movimento – é recíproco. Eu, bastante ocupado com minhas atividades familiares, profissionais e militantes, encontro algum tempo para participar de um movimento livre, autônomo e dedicado às questões da cidade. Não me enquadro, portanto, na categoria usada pelo prefeito para desqualificar quem o contesta. Além de não serem desocupados, os ativistas do movimento são muitos, e não alguns, como disse JH: jornalistas, artistas, estudantes, professores, comerciários, trabalhadores de várias categorias e desempregados, por certo – que não são necessariamente “desocupados”, como grosseiramente disse o nosso alcaide.
João parece ter construído uma cidade imaginária que governa com gosto e devoção, enquanto despreza a cidade real, onde vivemos nós, os que ele chama de “desocupados”. As belezas da Salvador dos seus sonhos decorrem do seu trabalho: “Você olha ao seu redor e dá pra ver que mudou.” Já as mazelas da cidade real, essas têm inúmeros responsáveis, além dos “desocupados”, das “forças do atraso” e outros vilões criados em sua mente brilhante.
A culpa pelos engarrafamentos é das concessionárias, que atentam contra Salvador por venderem carros demais. Não tem nada a ver com licenças para construção de prédios e consequente adensamento de grandes áreas sem os estudos de impacto exigidos em lei. Nem tampouco com o absurdo de não termos transporte de massa.
Os transtornos causados pela chuva que cai todo ano são fruto de uma fatalidade, como se não houvesse uma série histórica de medições de índices pluviométricos, como se não fossem bem conhecidas as nossas condições de solo e relevo. Como se não houvesse uma história de 462 anos de mau uso e má ocupação das terras de Salvador.
A culpa pelos engarrafamentos é das concessionárias, que atentam contra Salvador por venderem carros demais. Não tem nada a ver com licenças para construção de prédios e consequente adensamento de grandes áreas sem os estudos de impacto exigidos em lei. Nem tampouco com o absurdo de não termos transporte de massa.
Os transtornos causados pela chuva que cai todo ano são fruto de uma fatalidade, como se não houvesse uma série histórica de medições de índices pluviométricos, como se não fossem bem conhecidas as nossas condições de solo e relevo. Como se não houvesse uma história de 462 anos de mau uso e má ocupação das terras de Salvador.
Nas contas de 2009 e 2010, rejeitadas pelo Tribunal de Contas dos Municípios, segundo o alcaide, “não há nenhum ato de improbidade no relatório”. Segundo o prefeito, o problema “são as mudanças nos critérios de avaliação e aplicabilidade da Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF).” Mais uma vez, não se pode imputar ao gestor do município, a responsabilidade pela rejeição das contas.
Poderia encher umas três ou quatro laudas narrando as muitas esquivas criativas de JH para tirar o braço da seringa quando alguma coisa dá errada, ou quando nada na sua administração dá certo. Mas para evitar saturar e indignar quem lê estas mal traçadas linhas, fico com a última e lapidar esquiva do alcaide, temperada com um inédito senso de humor. Foi no dia da abertura do Carnaval 2012, sobre os buracos. Tome banho de asfalto, tome banho de asfalto, tome banho de asfalto... E eles estão a nos atordoar por toda parte. E quando pensamos que Sua Excelência finalmente reconheceria um problema da sua responsabilidade, apelou para o Rei Momo. Junto com a chave simbólica da cidade, “terceirizou”o mandato e passou o pepino para Momo resolver...
Claro, foi uma brincadeirinha de Sua Excelência. Como São Tomé, quero ver a TV Câmara para crer nas declarações transcritas e já publicadas pelo Bahia 247. Encantado com Copacabana e o Leblon, onde fazia cooper enquanto a cidade fervia com a paralisação dos PMs, JH defende a verticalização que fez aprovar na Câmara, ao alterar os limites para construções na orla: “quando se fala de Salvador, a gente não pode modernizar a orla, deixá-la com cara de progresso e bonita”.
Não há absoluto consenso entre os ativistas do DESOCUPA quanto à necessidade/oportunidade de abreviar o mandato de JH. Já opinei contra o impedimento do prefeito. Primeiro porque, gostemos ou não, Sua Excelência tem a legitimidade das urnas, mesmo considerando todas as imperfeições do nosso sistema político. É parte da nossa caminhada. Prefiro ver JH assinando sua obra completa, sem ter mais uma chance de transferir suas responsabilidades. Faltando dez meses para passar o cargo para o(a) próximo(a) prefeito, JH não terá como ampliar o estrago do seu desgoverno graças às restrições da legislação eleitoral.
Melhor ver “tatuada” na sua imagem pública a marca de um gestor inepto, errático e fraco. Por mais absurdo – e como falamos de Bahia, não faltam precedentes a justificar novos absurdos – a Câmara que aprovou aquela LOUS pode aprovar contas que o TCM reiteradamente condenou. Se tal ocorrer, Sua Excelência escapa da inelegibilidade: fica livre, leve e solto para esperar as eleições de 2014. E, no futuro, quando perguntado sobre as razões de Salvador ter perdido a oportunidade do bom momento da economia brasileira para se desenvolver realmente, já terá pronta a resposta dada na entrevista: “A população de Salvador tem que superar as forças do atraso. Salvador precisa de um upgrade e ainda não fizemos muito mais porque existem esses desocupados...” Sem a punição merecida pelos maus gestores, seguirá como um bom contador de histórias. Seguirá reivindicando para si a condição especialíssima de inimputável – aquele a quem não se pode responsabilizar pelos feitos como gestor, por ser uma eterna vítima das circunstâncias...
* Ernesto Marques é jornalista e pré-candidato a vereador de Salvador pelo PT
