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O pagode das minhas alegrias e dores

Por Cristina Maria Carvalho Nascimento

O pagode das minhas alegrias e dores
Antes de iniciar uma nova reflexão, peço a benção à Dona Ivone Lara, Jovelina Pérola Negra, à Mangueira, à Portela, ao Salgueiro e à todos os sambista do nosso querido Rio de Janeiro, donos dos grandes “sambas enredo” que tanto alegraram nossos carnavais, pois, humildemente, falarei sobre o Pagode!!!!!

Estou agora na década de 70, no Rio de Janeiro. Como um capilar do samba, o pagode toma forma e força na periferia carioca com a reunião dos músicos das escolas de samba e anônimos, tendo como cenário os botequins de azulejos azuis; a malandragem, a velha reunião de amigos para festejar, mostrar uma nova composição, celebrar. Esta nova linguagem do samba chega às rádios e TVs e mostra ao Brasil quão grande era o poder do fazer artístico de pessoas tão simples.

Quem não se lembra ou conhece sucessos de Paulinho da Viola, Luiz Ayrão, Candeia, Nelson Cavaquinho, Cartola, João Nogueira, Beth Carvalho, e ainda os compositores baianos: Ederaldo Gentil, Edil Pacheco, Panela, Batatinha, Riachão? Preciso, por uma questão de honra, transcrever uns poucos versos de “O Ouro e a Madeira”, composição de Ederaldo do Gentil: Não queria ser o dia só a alvorada/Muito menos ser o campo/Me bastava o grão/Não queria ser a vida/Porém o momento/Muito menos ser concerto/Apenas a canção. Simplesmente perfeita!

Agora, subitamente, sou lançada ao século 21 e me deparo com o que chamam de “evolução”: “chupa aqui pra ver se sai leite...” Chega! Nem será preciso escrever mais. Disseram e continuam dizendo que é pagode! Mas não se parece com nada do que eu descrevi sobre os nobres compositores e intérpretes acima.

E como roupa suja se lava em casa, para esse esdrúxulo verso acima eu digo: sem letra, sem harmonia, sem beleza, sem nada que possa ser chamado de pagode e muito menos de música. Aliás, nem sei a origem disso (bem que eu sei, mas...,). E não é nada salutar sairmos de Salvador para ouvir - e ter que concordar – que a música da Bahia que nos deu tanto, nos ponha em tal vexame. Para ouvir e ver que a mulher cantada por Dorival Caymmi não é a mesma profanada pelo tal “pagode” – mesmo sabendo que as seguidoras são muitas!!!!!

Profundamente, eu lamento e me entristeço por isso. Queria poder desligar o youtube, Orkut, Facebook, acabar com a internet, voltar à TV em preto e branco com no máximo aquela tela vermelha na frente, assim não passaríamos por isso.
Eu peço à Dona Ivone Lara, à Ederaldo Gentil, à Roque Ferreira, à Mangueira, à Portela, ao Salgueiro e a todos os sambista do nosso querido Brasil: Salvai-nos!!!!!!

*Cristina Maria Carvalho Nascimento é Bacharel em Composição (UFBA), Licenciada em Música (UCSal) Bacharel em Regência (UFBA). Professora de Música da Rede Estadual da Bahia.