Mãe Menininha, uma entidade baiana

Grande referência das religiões de matrizes africanas, profundamente enraizada na luta e na resistência negra e feminina do Brasil, a maior yalorixá da Bahia, Mãe Menininha do Gantois é cantada em verso e prosa. Nascida em 10 de fevereiro de 1894 e iniciada para Oxum aos 8 meses de idade, Maria Escolástica da Conceição Nazareth, ou simplesmente Mãe Menininha, foi agraciada ao longo de sua vida com diversos prêmios, reconhecida não apenas pelos religiosos de matrizes africanas, mas pela sociedade brasileira. Pela passagem de 25 anos sem Mãe Menininha, foi realizada uma sessão especial na Câmara Municipal de Salvador, no dia 12 de agosto, véspera do seu aniversário de morte.
Resgatar o legado de figuras históricas como Mãe Menininha é uma tarefa fundamental para permitir a revalorização identitária das atuais e futuras gerações de homens e mulheres negras, e de toda a sociedade brasileira. Mãe Menininha simboliza o respeito às tradições, à cultura negra, à sabedoria dos mais velhos; representa uma religião e uma fé oprimida, mas resistente, fundamental para identidade negra e popular no Brasil. Se ainda hoje as religiões de matrizes africanas sofrem a intolerância religiosa e o desrespeito à contribuição cultural e simbólica das comunidades tradicionais, já houve o tempo em que os candomblés eram proibidos, os xirês eram invadidos pela polícia e terreiros eram derrubados pela ação do Estado.
Não dá para falar de Mãe Menininha sem falar do racismo que oprime o legado do povo negro, incluindo a sua religiosidade. As negras e os negros escravizados eram obrigados a esquecer tudo o que lhes lembrasse da África. As mulheres ousaram romper essas regras. Elas não esqueciam, e o que lembravam legavam aos seus filhos e principalmente às suas filhas, que assim mantiveram essa tradição até os dias atuais.
Foi sabendo disso que, em 1849, Maria Júlia da Conceição Nazareth fundou o Ilê Iyá Omi Axé Iyamasé, conhecido como terreiro do Gantois, resultado da limpeza étnica do centro da cidade que expulsou da Barroquinha os terreiros e moradores negros. A tradição do Gantois é matrifamiliar, com dirigentes femininas e sucessão hereditária, de linhagem consanguínea. Maria Júlia, bisavó de Mãe Menininha, foi seguida por Pulquéria de Oxossi, a Grande, tia de Mãe Menininha; e depois por sua mãe, Maria da Glória.
Mãe Menininha assumiu o Gantois ainda bastante jovem, aos 28 anos. Era uma mulher simples e doce, e ao mesmo tempo detinha forte habilidade de liderança e comando. Descendente de família nobre da África, ela dominava a língua iorubá e tinha conhecimentos em jeje e bantu, o que lhe permitia grande versatilidade e conhecimento dos rituais e tradições.
São muitos os elementos que tornaram Mãe Menininha a figura emblemática que ela é. Quero ressaltar, primeiro, a sua habilidade diplomática. Em um meio profundamente racista e machista, o candomblé e sua liderança feminina não eram bem-vistos. Ela não apenas superou a marca do racismo. Suas casas eram freqüentadas por vários intelectuais, alguns deles se tornaram seus filhos de santo ou protetores, diversos passaram a estudar o candomblé o que permitiu à religião uma perspectiva diferente do que a elite, a mídia e o Estado davam àquela época.
Mãe Menininha dedicava sua vida aos seus semelhantes. Acolheu, abrigou, vestiu e alimentou inúmeros recorrentes. Não questionava a procedência das pessoas. Abdicava de sua própria vida para passar dias e noites atendendo seus filhos, fiéis e pessoas do povo que necessitavam de auxílio. A ialorixá comandou o Gantois por 64 anos, retornando para o Orum, em 13 de agosto de 1986. Uma mulher de fibra, de garra, que fortalece a identidade do terreiro como quilombos de luta e resistência.
E é por isso que, em fevereiro de 2012, na semana de nascimento da Mãe Menininha, a Câmara Municipal de Salvador, que é a primeira Casa Legislativa do Brasil, irá conceder a Medalha Zumbi dos Palmares à yalorixá. Ainda é pouco, mas o Estado e a sociedade brasileira começam a reconhecer o significado que ela tem para o povo negro.
* Marta Rodrigues é vereadora e presidente da Comissão de Reparação da Câmara Municipal de Salvador.
