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Artigo

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LEMBRANDO DO MAIO BAIANO

A intenção do presente texto é a de, simplesmente, travar um debate elegante, respeitoso, crítico e de alto nível com as palavras escritas pelo secretário de finanças do Partido dos Trabalhadores no último dia 13/05/2011. Gostaria de tentar fazer alguns esclarecimentos, mas não com a intenção de desprezar, menosprezar ou desmerecer as palavras do querido companheiro Ademário Costa (ver aqui). O trato desta maneira porque integramos juntos a gestão do Diretório Acadêmico de Ciências Sociais além de outros momentos nos quais pude constatar o seu caráter, o seu senso de solidariedade e o seu desprendimento para a construção do socialismo em nosso país. És um companheiro de respeitável trajetória no movimento estudantil e dentro do PT.
Feito estes esclarecimentos iniciais, passemos agora ao debate.

Ademário, é fato que muitos que ontem foram adversários contundentes e impiedosos, hoje, são aliados do atual governo do estado da Bahia em seu segundo mandato. Podemos observar e aceitar que, em 2006, o então candidato ao governo pelo PT era “fruto das inúmeras lutas populares de resistência aos desmandos do carlismo, de enfrentamento a um modelo oligárquico, repressivo e autoritário que arvorou durante 40 anos governar o nosso povo com o dinheiro na mão e o chicote na outra” como você colocou. Porém, nos dias de hoje não podemos aceitar tais colocações uma vez que observamos, também, a postura do atual mandatário baiano frente, por exemplo, ao movimento grevista dos professores e professoras, funcionários e funcionárias das universidades estaduais se afasta do que você afirmou em seu texto. Entre algumas medidas adotadas recentemente, estão algumas que foram e são lutas históricas destes movimentos, docentes e funcionários, entre elas a autonomia universitária. Que vem sendo frontalmente atacada à medida que os docentes, em particular, pelo decreto 12.583/11 que detém entre outras deliberações as seguintes que tomo a liberdade de transcrever: suspender o aumento na cota das Gratificações por Condições Especiais de Trabalho – CET e Regime de Tempo Integral e Dedicação Exclusiva – RTI para cargos efetivos e de carreira do Poder Executivo Estadual; suspender a concessão de afastamento de servidores públicos para realização de cursos de aperfeiçoamento ou outros que demandem substituição; vetar a reestruturação ou qualquer revisão de planos de cargos e salários das empresas públicas e sociedades de economias mistas.

Mas, voltando ao foco do nosso debate devo dizer - com o interesse de colocar “os pontos nos is’ - que a mão que segurava o chicote não era a do senhor Castro e, sim, a mão do então governador do estado da Bahia, César Borges (ou mais além, a mão do senador cassado Antonio Carlos Magalhães). O mesmo que quase foi candidato ao senado pela chapa do atual governador, mas que sofreu uma severa, justa e renhida resistência do corpo de militantes do PT, em especial, dos militantes e das militantes da juventude do seu partido.

Lembremo-nos também que menos de dois meses depois àquele acontecimento truculento, covarde e desleal perpetrado pela tropa de choque da Policia Militar do estado da Bahia a sociedade baiana foi surpreendida com o movimento grevista de soldados e oficiais desta corporação aqui já citada. Muitos, principalmente as lideranças de tal movimento, foram punidos e punidas, perseguidos e perseguidas, inclusive em momentos posteriores ao mesmo.

Saiba meu querido amigo e companheiro que admiro a sua coragem e determinação quando participastes, um ano antes destes eventos aqui por mim lembrados, da resistência à “festa do descobrimento” (2000) na cidade de Porto Seguro. Como fiquei irritado por não está ao seu lado e de outros companheiros e companheiras, ainda que fosse só para correr da polícia.

Contudo, estava ao seu lado quando entoamos a cantiga por você transcrita no seu texto. Estava ao seu lado quando assistimos juntos, a tropa de choque lançar bombas de gás nas faculdades de medicina e de administração da UFBA. Na faculdade de direito, onde nos encontrávamos, esta mesma tropa não conseguiu concluir a invasão, pois você e outras lideranças, juntamente com todos e todas que lá estavam, conseguiram impedir que tal objetivo autoritário fosse alcançado. “E foi extraordinário, observar os soldados recuando enquanto mais e mais estudantes, professores, parlamentares, dirigentes sindicais, sem-terra e trabalhadores urbanos avançavam...”. Neste trecho, caro companheiro, lhe digo que estes segmentos continuam tentando avançar, apesar das divergências ideológicas. No entanto, o atual comandante da Policia Militar do nosso estado, o Coronel Alfredo Castro, não foi alçado a este cargo tendo como critério saber que o lugar que ele ocupa hoje é resultado de lutas como esta, do maio baiano, que ele mesmo ajudou a reprimir. Não é a memória deste mesmo coronel que deve ser refrescada e, sim, a memória do atual governador. Com todo o respeito sugiro que o aconselhe a colocar de molho a barba que ele tirou, pois assim como você afirmou “caso precise refrescar a memória nós estamos aqui de prontidão para não deixar esquecer jamais”.  

De qualquer sorte caro companheiro lhe desejo que se recorde que há dez anos atrás conquistamos uma pequena vitória que precedeu outras como as vitórias eleitorais na eleição presidencial de 2002 e na eleição para governador da Bahia em 2006. Ambas, porém, alcançadas também por meio de alianças políticas que não confirmaram posteriormente a construção do projeto contra-hegemônico com o qual sonhamos até hoje. Assim como outubros outros, outros maios virão, com certeza. Até a vitória, venceremos.

* Sandro Santa Bárbara foi candidato a governador e é membro da executiva estadual do PCB.