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LEMBRAR PARA NUNCA MAIS ACONTECER

“...Liberdade, essa palavra que o sonho humano alimenta, que não há ninguém que explique e ninguém que não entenda...”. Com essa frase da escritora Cecília Meirelles, lembro do dia 31 de março, marco do golpe militar no Brasil. Faz 47 anos que o país sofreu com um regime político perverso que torturou e matou muitos cidadãos que lutaram pela autonomia e por liberdade de expressão. O primeiro militar a assumir foi o general Castelo Branco, que passou a tarefa para outro general, Costa e Silva. A partir daí, a vida dos brasileiros virou um inferno.
 
Prisões, desaparecimentos dos quais, até hoje, muitos não foram explicados, inquéritos policias e tantas outras ações de repressão embasadas nos Atos Institucionais (AI’s) – que teve seu ápice com o AI-5 de 1968. A medida suspendeu a Constituição de 1946, dissolveu o Congresso Brasileiro, destituiu os brasileiros de suas liberdades individuais e criou um regramento legal que permitiu ao Exército brasileiro e à Polícia Militar o encarceramento, sem julgamento, de pessoas que levantavam sua voz contra o regime ou que simplesmente eram consideradas suspeitas de cometer este “crime”.
 
É nesse momento que o regime militar coloca na clandestinidade, impedida de se organizar politicamente, a organização revolucionária marxista Política Operária (Polop). Há cerca de 48 anos, entre 16 e 19 de janeiro de 1961, um grupo de jovens militantes revolucionários se reuniu em Jundiaí, na grande São Paulo, para fundar essa organização. O ato foi a coroação de uma série de debates e articulações entre quadros políticos e intelectuais que então militavam em pequenas organizações ou se articulavam em torno de publicações marxistas.
 
Um conjunto de idéias básicas unia o grupo. Entre elas estavam a condenação à política de colaboração de classes, à época comandada pelo PCB, PSB e PTB; a defesa do caráter socialista de qualquer futura revolução no Brasil; o reconhecimento do papel da classe operária como força aglutinadora; a defesa da construção de um partido representativo da classe operária em oposição aos partidos burgueses e reformistas; e a crítica às deformações burocráticas dos Estados do então campo socialista, mas sem deixar de dedicar solidariedade a esses países em seus conflitos com o sistema imperialista.
 
A influência da chamada Esquerda Revolucionária foi profunda no país. Pode-se dizer que a Polop catalisou as lutas internas que envolveram o PCB nos anos que se seguiram ao golpe militar de 1964. Mas as condições gerais do período que se seguiu, marcadas pela consolidação da ditadura, pela longa clandestinidade, aliadas à onda voluntarista que terminou prevalecendo na Esquerda Revolucionária, selaram o destino da Organização. O cerco repressivo, as prisões, o exílio forçado, provocaram a desintegração do seu núcleo dirigente ao longo dos anos 70.
 
Jornalistas, estudantes, políticos, militantes de esquerda, partidos políticos e sindicatos tiveram seus direitos cassados. Depois, com a anistia, os exilados ainda chegaram a se mobilizar no sentido de reaglutinação da organização. Essa reorganização foi tarde demais, já que o contingente de militantes disponíveis era demasiadamente reduzido e isolado do centro dinâmico das lutas sociais brasileiras, numa conjuntura marcada pela retomada das greves operárias, pelo surgimento do PT e pela gestação da CUT.
 
Hoje, é importante não deixar de lutar pelo direito civil de se organizar e em busca de justiça social, de melhores condições de vida, das reformas urbana e agrária, combatendo sempre toda forma de opressão, seja ela de classe, raça, gênero ou orientação sexual.
 
Gritemos aos ventos e às pessoas que ainda queremos um mundo diferente, cultural e etnicamente diverso, mas socialmente igualitário. Gritemos sempre para que o 31 de março de 1964  nunca mais aconteça. Como disse o historiador Francisco Carlos Teixeira da Silva, “devemos insistir em uma memória que, em primeiro lugar, construa o lugar da violência e do arbítrio em nossa história recente (...) para além dos interesses imediatos dos políticos que articularam as chamadas aberturas, convencidos dos méritos do esquecimento”.
 
Por isso, hoje, a epígrafe da poeta carioca apresentada acima se tornou tão cara para nós brasileiros. Também para  outros povos que passaram pelas experiências aqui refletidas.

*Marcelino Galo - Deputado Estadual (PT)