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REVOLUÇÃO NECESSÁRIA


Reub Celestino

Nas últimas duas a três décadas, cidades no mundo inteiro passaram por transformações urbanas significativas, decorrentes das intensas mudanças no funcionamento das economias, com conseqüente elevação de padrões de vida e melhoria do bem-estar social. Houve a compreensão de que uma nova imposição surgia para mudança de conceitos, ordenamento dos espaços e a adequação aos novos interesses das sociedades.
Até no Brasil, mesmo que ranzinza para querer se desenvolver, cheio de absurdas dificuldades, por conta das suas antiquadas práticas econômicas e políticas, as novas transformações vêm ocorrendo.
Cidades de todas as regiões do país avançaram em novos conceitos urbanísticos e de crescimento econômico e se apropriaram de oportunidades para o desenvolvimento. Como exemplos, Fortaleza, Recife, Goiânia, Curitiba, Florianópolis, (...) mostram-se atrativas e gostosas para se ver, viver e ter negócios.
Salvador, ao contrário, arredia aos novos ditames do universo moderno, ficou mais que atrasada.  No início do processo era pobre, atualmente é cheia de miseráveis. 
Com um parco PIB, de R$ 13.6 bilhões, em 2005, Salvador apresentou crescimento real negativo acumulado de 11.7%, no período 1999/2004, enquanto o Estado da Bahia cresceu, positivamente, 53%.  É a pior capital brasileira em arrecadação per capita de impostos. A cidade produzia, em 1999, 23% do valor econômico do Estado, caindo para 13% em 2005.  Tem o pior crescimento real de renda entre as capitais brasileiras e o penúltimo lugar em renda per capita, com cerca de R$ 400 reais por mês, não suficiente para uma vida com dignidade. Até 2001 o PIB per capita de Salvador era maior que o da Bahia. Desde então, tornou-se inferior e hoje é de apenas 80% do estadual.
Salvador não tem especialização, não tem concentração de atividades, tem baixa capacitação, tem baixo potencial de consumo e sua produção não a faz uma capital econômica representativa. Produzindo mal na indústria, nada na agricultura, pouco no comércio e mal nos serviços, salva-se em ser destaque nacional pelos seus atrativos naturais, históricos e culturais.
Por involuir economicamente, a miséria e o desemprego são as duas caras da cidade. Como conseqüência, Salvador supera todas as capitais do Norte e Nordeste em baixo Índice de Desenvolvimento Humano (0,805).
Torna-se inadiável, portanto, uma conjunção de esforços, de toda a sociedade, para buscar-se um responsável e conseqüente projeto de transformação para Salvador. Existem várias hipóteses, todas elas inexoravelmente capitaneadas pelo cunho econômico, porque gera produção, cria empregos, faz renda, aumenta o consumo e traz bem-estar.
Salvador precisa de uma “revolução”. 
Três linhas poderiam definir um “rumo revolucionário”: Organização para atividades de conhecimento e tecnologia, porque “puxam” o desenvolvimento; fomento a segmentos econômicos que não exigem demasiada capacitação e que são mais empregadores de pessoas; produção econômica pela modernização imobiliária. No primeiro caso, estariam segmentos adequados tanto ao mercado local quanto à exportação; no segundo, seriam segmentos que atraíssem o capitalismo de renda mais alta.  Estariam aí atividades de lazer, entretenimento e náutica. Neste âmbito, o turismo permearia tudo, passando, no amadurecimento do processo, a ser líder, mas com feição diferente do atual, que gera pouca renda. 
No terceiro caso, estaria a revolução imobiliária, com potencial de arranque imediato e de permanência por décadas, podendo atrair grandes somas de investimentos, intensa geração de empregos, uma infinidade de novos negócios, além de configurar uma nova estética para determinadas e importantes áreas da cidade.  Por esse segmento, Salvador aceleraria a sua formação de riqueza, inclusive com recursos externos, nacionais e internacionais, atualmente em boa liquidez. 
Compreensão da necessidade e da oportunidade, articulação técnica e política, determinação e coragem são os fundamentos da “revolução”. Os projetos e dinheiro viriam, com absoluta predominância do setor privado. 
Há vasto campo para empreendimentos imobiliários. A pensar-se, por exemplo, pela ótica internacional, Salvador seria bom local para investidores estrangeiros ávidos por lugares que ofereçam condições tranqüilas para uma segunda casa.
No contexto nacional, as grandes cidades já fizeram boa parte dos seus avanços imobiliários, reduzindo a concorrência.  Salvador ficou contida e retida por posturas antiquadas e retrógradas, mas como há males que vêm para o bem, temos um grande potencial que pode ser solto.
Aliás, ajudando a isso, a Prefeitura de Salvador está preparando três excelentes instrumentos, todos para 2006: a finalização da sua Estratégia Econômica, o novo Código Tributário do Município e o Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano, onde reside a “poção mágica” que são os gabaritos, que, alterados responsavelmente, podem liderar a revolução.

Reub Celestino é economista e Secretário da Fazenda de Salvador.