MULHERES NA LUTA PELA TERRA
No início da semana passada, mas precisamente no município de Eunápolis, na Região do Extremo Sul, mulheres militantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terras, o MST, realizaram uma ocupação de terras pertencentes à multinacional Veracel. A ação fez parte da jornada de lutas das mulheres do MST, em virtude do 8 de março, Dia Internacional da Mulher.
As trabalhadoras denunciam a ação do agronegócio na região com a produção do monocultivo de eucalipto. A Veracel está instalada em cerca de 205 mil hectares no Extremo Sul da Bahia, tendo em torno de 96 mil hectares só com eucalipto destinado à exportação. A questão é que parte dessas terras são devolutas, logo em situação irregular, e, portanto, devendo serem destinadas à reforma agrária.
A ocupação, dentro dos moldes que o MST vem realizando há vários anos nos protestos pela implantação de uma reforma agrária no Brasil, foi pacífica, sem nenhum tipo de confronto que viesse a prejudicar a região. Mas revelou outra face da luta pela terra: a de que as mulheres estão mais do que nunca engajadas nesse processo de reforma agrária e que a elas também cabem o papel de protagonistas nessa luta, que é de todos os que vivem no campo.
A ação contou com mulheres do campo com idades entre 16 e 80 anos, que acordaram - boa parte delas sequer dormiu – antes do nascer do dia. Dispostas, com facões, foices e enxadas, elas abriram caminho na mata e lá montaram suas barracas de lonas pretas, para aguardarem que o governo desaproprie as terras que necessitam para terem uma vida digna e poderem produzir.
A ocupação de uma área da Veracel leva o nome da Irmã Dorothy, aquela missionária norte-americana que foi assassinada no Estado do Pará, em 2005, justamente porque brigava pelos direitos dos mais oprimidos, principalmente quando os oprimidos e menos favorecidos são aqueles que vivem no campo.
E o que as mulheres querem com esse ato?. Chamar a atenção da sociedade e principalmente do governo, para que, com ações efetivas da reforma agrária, mude essa realidade no campo, proporcionando terras a quem quer produzir e, com isso, diminuindo as desigualdades sociais, a violência, e tornando efetivamente o Brasil um país de todos.
Sabemos que muitos criticam a ação dos sem terras, particularmente as ações do MST. Mas só quem já viveu anos e anos dentro de um barraco coberto com lona preta, sem ter qualquer tipo de conforto, sabe que essa luta é o único recurso para que aqueles que são, na maioria das vezes invisíveis para a sociedade, possam ser vistos, e, através dessas ocupações, possam ter suas reivindicações atendidas.
As mulheres que lá estão sob sol e chuva, não estão ali por prazer. Estão por necessidade. Mas também estão movidas pela esperanças. Esperança esta de que seus gritos pela terra possam chegar até os ouvidos da presidenta Dilma Roussef – que por sinal estava na Bahia quando se deu a ação do MST, em outra região daquele estado, no município de Irecê.
E que esses gritos, sendo ouvidos pela presidenta, possam ser respondidos com ações da reforma agrária. O que os militantes do MST, e de todos os demais movimentos que lutam pela reforma agrária no Brasil, querem é que apenas se cumpra o direito que a eles é garantido pela própria Constituição Federal, de que as terras improdutivas sejam desapropriadas para efeito da reforma agrária.
E essa causa, essa luta que já dura décadas, são abraçadas por homens e mulheres do campo, porque querem que os seus filhos possam ter um lugar para morar, uma terra de onde possa colher o produto resultante do seu trabalho, e que possam não mais precisar viver anos sob um barraco coberto com lona preta, para que sejam vistos pela sociedade e tenham suas reivindicações atendidas.
Por isso ocupam a terra. Mas por isso mesmo é que confiam de que esses protestos não sejam em vão e que o governo, com a sensibilidade que tem manifestado com as causas sociais, possam atendê-los naquilo que lhes é de direito.
* Valmir Assunção é deputado federal do PT-BA, fundador do MST e ex-secretário estadual de Desenvolvimento Social e Combate à Pobreza