O PT DIANTE DO ESPELHO

Ernesto Marques
A pauta política municipal desta semana está com o prefeito João Henrique e o seu novo partido, o PMDB, ao qual se filia festivamente com toda pompa e circunstância. A partir da próxima semana as atenções retornam à sede do PT, que ao contrário de muito do que se disse pela imprensa na semana anterior, ainda não resolveu se sai ou se fica no governo João Henrique. Depois de mais um debate, no dia 18 passado, quando os membros do diretório municipal se alternavam em discursos a favor e contra o desembarque, decidiu-se não decidir, e assim o dilema persistirá até o dia 26, quando haverá nova reunião. A demora e a pouca clareza na tomada de posição revelam um partido dividido, é verdade. Mas, engana-se quem vê os petistas entre ficar ou sair da Prefeitura. O dilema é apenas revelador de uma grave crise de identidade que, por sua vez, deriva do que muitos militantes e formuladores definem como institucionalização do partido. Afinal de contas, o PT virou um partido da ordem, que define suas posições a partir dos objetivos eleitorais; ou ainda pretende alguma transformação real na sociedade?
Após o segundo turno de 2004, por exemplo, foi importante ter decidido apoiar o prefeito eleito e comprometer-se com sua administração, a ponto de assumir uma área complicada como a saúde. Naquela altura, mesmo derrotado na disputa pelo Palácio Tomé de Souza, o PT saiu das urnas como o maior partido em Salvador, e a base de seu apoio ao escolhido por 75% dos soteropolitanos estava no compromisso histórico com a cidade e na lucidez de somar forças para o enfrentamento a um adversário comum. Inegavelmente, João Henrique cumpriu um papel importante na construção do cenário que levou à eleição do governador Jaques Wagner e toda a mudança na política regional. Importante, mas ainda longe de ser central ou decisivo. Passados trinta meses, as circunstâncias são outras. Durante esses dois anos e meio, apesar de maior partido da base, o PT nunca esteve no centro do governo. Nem mesmo os tucanos estiveram, e talvez só o PMDB do ministro Geddel consiga o feito – ninguém duvide da sua incrível capacidade de convencimento.
O tempo decorrido desde a posse e os fatos políticos e administrativos registrados no período não dão margem a dúvidas: é impossível fazer aliança programática entre projetos políticos tão distintos. Sem se aproximar em termos práticos do programa petista, JH soube associar-se habilmente a algumas marcas muito caras ao Partido dos Trabalhadores, e colheu bons dividendos. Mas, terminou por evidenciar a distância entre o projeto pessoal de uma liderança com as idiossincrasias de um João Henrique, e um partido com programa muito claramente definido, como o PT. Faltou disposição política para promover uma verdadeira inversão de prioridades: saúde e educação a duras penas receberam os percentuais constitucionais de investimento. Faltou determinação para mexer na ferida do financiamento da cidade: a classe média, com o pagamento de impostos, e os mais pobres, com o sacrifício de purgarem sem os serviços a que têm direito, continuam financiando a Salvador-maravilha dos mais ricos e dos turistas.
Da porção petista da administração municipal, somente se salva sem maiores arranhões a Secretaria da Reparação, a cargo de Gilmar Santiago. Fora isso, a Saúde e a Coordenação das Administrações Regionais – Luís Eugênio Portela e Marta Rodrigues, respectivamente – preocupam por tratar-se de marcas de excelência tradicionalmente associadas às gestões petistas em governos municipais.
A missão predominantemente institucional de Secretaria Municipal da Reparação pode ser satisfatoriamente atendida com muita vontade política, se o dinheiro é pouco. Mas, saúde e orçamento participativo pressupõem investimento. Como o “cobertor” é sempre pequeno para cobrir as demandas sempre crescentes, este investimento só se viabiliza com o pulso firme do primeiro mandatário. Sem isso fica difícil assegurar o financiamento adequado e racional dos serviços públicos de saúde. Disso depende também a execução das indicações sugeridas no rico processo do orçamento participativo. Os expressivos avanços conquistados com a municipalização da saúde são ofuscados pela crise gerencial de uma administração que, incapaz de equilibrar as contas, vive apagando incêndios. Da mesma forma as obras e serviços previstos no orçamento participativo e não realizadas, geram desconfiança em relação a um método absolutamente democrático e democratizante – pedagógico, portanto – de gestão pública. Fora o prejuízo simbólico do partido, perdem novamente os petistas ao verem dois de seus bons quadros, Luís Eugênio e Marta, expostos a um tremendo desgaste enquanto figuras públicas.
O PT poderia liderar o processo sucessório, mesmo sem indicar o cabeça da chapa – que poderia até ser João Henrique, em circunstâncias bem diversas das que se construíram nos últimos trinta meses. Este não é o “xis” da questão. O problema é optar por uma posição de coadjuvante quando teria, por mérito, o lugar de protagonista. E, repito, isso não implica ser o cabeça da chapa. A indecisão, o argumento de que “não é a hora” ou do “é preciso construir”, não merecem sequer o rótulo de posição recuada. A capoeira ensina que recuar também é atacar, desde que se saiba o movimento seguinte à esquiva. Não parece ser o caso. Os melhores argumentos dos defensores da permanência não vão além de 2008 ou 2010. Não sugerem levantar as vistas para enxergar o futuro mais além, muito menos indicam uma sempre salutar visita ao passado. A postergação jogou o hoje ex-secretário Luís Eugênio na frigideira, e a sua saída deixa o PT ainda mais desconfortável na Prefeitura.
Inapetente para o protagonismo que supunha ser o seu destino histórico, o PT caminha para em algum momento homologar decisão forjada pelas circunstâncias em vez de resultante da sua iniciativa política. E discute. E debate. E empurra com a barriga uma definição como se fosse senhor absoluto do tempo. João Henrique segue firme em sua tibieza, estável em sua instabilidade. Absolutamente coerente com a sua ambigüidade política ambulante. E o PT? Qual caminho escolherá o partido do governador da Bahia e do presidente da República? Afinal de contas, será apenas mais um partido da ordem, que define suas posições a partir dos objetivos eleitorais; ou ainda guarda a pretensão de pilotar um processo de transformação real na sociedade? Recomenda-se uma boa reflexão diante do espelho antes de decidir. Se pode escolher, não poderá queixar-se de vítima das circunstâncias.
Ernesto Marques é jornalista e militante do PT