TURISMO, A CRISE ANUNCIADA

Isaac Marambaia
A decisão da rede Sofitel, que pertence ao grupo francês Accor, de retirar sua bandeira do complexo turístico Costa do Sauípe, parece ter surpreendido muitos analistas e profissionais da área. O grupo Accor administrava duas das cinco unidades hoteleiras da Costa do Sauípe e sua saída prenuncia uma crise de proporções ainda não devidamente calculadas.
Desde o ano de 2005 que o Complexo Costa do Sauípe começou a dar sinais acerca das dificuldades que estava enfrentando, para manter em um patamar de razoabilidade os negócios hoteleiros ali existentes.
Por força dessas dificuldades, no início do ano passado foi desencadeada uma guerra tarifária entre as bandeiras instaladas no Complexo Costa do Sauípe, complicando ainda mais a já delicada sustentação dos empreendimentos.
A crise não surge de um fato isolado e não diz respeito apenas ao grupo Accor. Ela se estende por todo o país e em especial pelo nordeste brasileiro.
Nos anos recentes diversos fatores vêm contribuindo para produzir incertezas em relação aos investimentos turísticos realizados e a serem efetivados no Brasil. A resultante imediata da ação desses fatores foi a queda ou não crescimento do número de turistas estrangeiros e nacional.
Enquanto cresceu o número de resorts, hotéis de menor porte e pousadas, por toda a região nordeste, a freqüência de turistas sofreu diminuição. Para dar sustentação a essa afirmação, basta verificar os números divulgados pela Embratur e relativos ao ano de 2006, nos quais se constata uma queda do número de turistas estrangeiros de 5,3 milhões em 2005, para 5 milhões naquele ano.
Está claro que com uma maior quantidade de apartamentos disponíveis e um menor fluxo de turistas estrangeiros e nacional, era previsível e anunciada uma crise no setor.
Apenas a título de ilustração, mas para sinalizar o quanto está por ser feito no Brasil, no setor do turismo, em 2006 a França recebeu a visita de 78 milhões de turistas, para uma população de 63 milhões de habitantes.
O diagnóstico da crise nos coloca diante de cinco fatores que, a meu juízo, vêm contribuindo para alimentar as dificuldades que estão perturbando o funcionamento e o crescimento do turismo da Bahia e do Brasil.
O primeiro está relacionado com o câmbio, por força da valorização do real, que reduz a capacidade de competição dos destinos nacionais em relação a outras praças e favorece o turista brasileiro a optar
por países que não o Brasil.
A redução de tamanho do extrato social médio da população brasileira e também a queda do seu poder aquisitivo, verificada nos últimos cinco anos, transformou, boa parte dela, em um segmento predador que impõe redução tarifária e obriga a queda da qualidade dos serviços originalmente prestados pelas unidades hoteleiras, sem atender ao resultado financeiro exigido pelo empreendimento.
Neste ponto entra em cena um intrigante personagem, conhecido pela sigla CVC. Trata-se da maior operadora de turismo do país, com 154 lojas espalhadas pelo território brasileiro. A CVC é responsável por mais de 65% das vendas de pacotes domésticos para o nordeste. O seu crescimento lhe confere um poder de barganha estrondoso junto às cadeias hoteleiras, favorecendo-a na negociação de preços.
A CVC é conhecida como “Casas Bahia do setor”, em virtude da sua capacidade de negociar preços que nem sempre beneficiam a rede hoteleira.
O terceiro fator identificado é a explosão de cruzeiros marítimos que vem atraindo um número cada vez maior de turistas estrangeiros e nacional, competindo em um mercado saturado, onde falta cliente.
A segurança pública, traduzida na violência descontrolada e a crise no setor da Aviação fecham o elenco de fatores que estão a determinar a presente crise no setor do turismo.
Isaac Marambaia é economista, consultor, foi vice-prefeito de Camaçari e deputado estadual em três legislaturas. [email protected]