UTOPIA - COMOS REALISTAS. QUEREMOS O IMPOSSÍVEL!
Utopia – Somos realistas. Queremos o impossível! Esse foi o tema anual do projeto interdisciplinar da escola do meu filho, que faz a sétima série do ensino fundamental, proposto aos alunos de todas as séries. Cada uma, dentro de um subtema especifico, teria que desenvolver uma coreografia artística com a utilização de expressão corporal, teatro ou música.
Desde o ano anterior, quando foi anunciado esse tema, fiquei muito intrigada e pensativa de qual seria a melhor forma de ajudar um adolescente de 13 anos, juntamente com sua turma, de modo a criar uma representação que vinculasse, também, o conceito de que todos somos iguais.
Iniciei a conversa pelos radicais da palavra “gregros”, "ou - não" e "topos - lugar". Portanto, o "não-lugar" ou "lugar que não existe" no mundo real é desejado, se não por todos, pela maioria.
Resgatei também, o pensamento de Thomas Moore no célebre livro “A Utopia”, quando inspirado nas narrações do explorador Rafael Hytlodeo descreveu a descoberta de uma ilha onde a sociedade seria perfeita em sua organização e completamente equitativa na distribuição dos recursos escassos.
Como contraponto, dentro do contexto atual, exemplifiquei como algumas pessoas têm a capacidade de transformar um sonho em realidade, transformando parte ou uma comunidade inteira. Assim consegui corporificar a minha opinião e ajudá-lo a compreender que em certos momentos, apesar de termos a sensação de que o sonho é impossível, ao perseverarmos percebemos que esta pequena chama pode contaminar outras pessoas com esse mesmo ideal. Juntas elas podem criar elos fortes e capazes de, na medida da possibilidade, avançarem passo a passo rumo ao bem comum, e ao olharem para trás percebem que o impossível, contraditoriamente, foi realizado.
Evidenciei o papel da construção de redes de pessoas e organizações, com base em princípios de identidade e de complementaridade de funções na geração de conforto e de vida digna para nós, seres vivos desse planeta.
Crucial é a importância que tem a identificação do propósito e respeito à vocação de cada pessoa na comunidade onde, de forma autônoma ou impulsionada, apoiadas por movimentos religiosos, empresariais, não-governamentais ou governamentais ou um mix desses agentes, ao passarem a gerar produtos com mais valor agregado para a venda, podem criar riqueza pessoal e para o grupo em que convivem.
Observar que, para o alinhamento da identificação, é necessário o estímulo, o aprendizado e o devido tempo para que as pessoas desconstruam padrões de negatividade e descrédito em si mesmo e nas pessoas no seu entorno. Especialmente em comunidades em que a pobreza proporciona uma certa “indolência”, até o ponto que percebam a força que possuem.
Na linha da complementaridade de funções se faz necessário conectá-los com grupos que conheçam e desenvolvam design de produtos, distribuição, transporte e sejam criadoras de mercado para os produtos objetos de seus esforços. E que a depender do propósito de alma e do negócio, é preciso encontrar alguém que sonhe de forma mais ampla e que possa acreditar inclusive, na capacidade de cruzar mares além fronteiras, na certeza da descoberta de mercados mais prósperos e sensíveis a essa lógica.
Refletindo um pouco mais sobre a resposta à pergunta de meu filho, de como podemos começar essa rede, essa roda viva e de vida, pensei e evoquei a teoria da responsabilidade de Hans Jonas: "a responsabilidade estaria construída em torno da categoria de bem, de ver, e de ser, e encontraria na relação pais-filhos seu arquétipo primordial". E respondi a ele que é no nosso dia a dia, inicialmente conosco mesmos, com as pessoas mais próximas da nossa família, com nossos vizinhos, cultivando valores e ideais a serem perseguidos na construção de uma vida confortável para todos, sem transformá-los em fins em si mesmos, é que seremos objeto e agente de transformação.
Ressaltei que querer o impossível pode ser impulsionador, especialmente para os jovens, mas que temos que ter cuidados com os limites de preservação de um bom relacionamento e da vida ao nosso redor. Um dos Princípios da Responsabilidade instituído pelo autor acima, nos presenteia com a seguinte colocação: “A imodéstia de seus objetivos, equivocada em termos ecológicos como antropológicos [..] contrapõe a tarefa mais modesta que obriga ao temor e ao respeito: conservar incólume para o homem, na persistente dubiedade de sua liberdade que nenhuma mudança das circunstâncias poderá suprimir, seu mundo e sua essência contra os abusos de seu poder.”
O respeito a si, ao outro, à natureza; a busca por formas mais criativas e otimizadas no uso de recursos e a comunhão de interesses focados no benefício de todos podem construir o portal para esse sonho. Herança de civilizações ao longo dos tempos, de um mundo em que todos são essencialmente iguais, interligados e unidos, formemos aparentes ilhas que se entrelaçam criando redes de pensar e fazer um mundo melhor.
E se aceitamos que não existe coincidência, e de que inícios podem ser retomados, vamos estar prontos para acolher uma das versões aceitas por historiadores, de que essa ilha descrita por Rafael, é a nossa Fernando de Noronha, quando da viagem de Cristóvão Colombo. Ou seja, o sonho da equidade já esteve bem perto de nós, está dentro de nós e vamos buscá-la de forma perseverante e amorosa todos os dias das nossas vidas como uma forma digna de todos viverem.