GIGANTISMO E ACROMEGALIA

Felipe Gaia Duarte
Dentre os processos fisiológicos que são naturais aos seres humanos, o crescimento é um dos que mais chama a atenção, quer pela expectativa da altura a que alcançará o indivíduo, aguardado com muita ansiedade motivado principalmente pela estética, quer por ser um dos marcos da transição entre a infância e a vida adulta. O crescimento é regulado por uma série de hormônios produzidos por uma glândula localizada na base do cérebro chamada hipófise. Além dos hormônios sexuais que são fundamentais para este processo, outro hormônio tem um papel predominante para o crescimento. Tecnicamente chamado de somatotrofina, este hormônio se tornou mais conhecido pelo nome de Hormônio do Crescimento ou simplesmente GH (sigla para Growth Hormone, em inglês).
Durante a transição entre a infância e a vida adulta, no período da puberdade, o GH é produzido em altas concentrações promovendo o crescimento acelerado da altura da criança. No fim da puberdade e durante todo o resto da vida o GH continua a ser produzido, porém em concentrações menores tendo como principal papel a manutenção da vitalidade dos órgãos e tecidos e ajudando no fornecimento de energia do corpo.
No entanto, numa porção pequena da população, cerca de 30 a 60 pessoas por milhão de habitantes, a produção deste hormônio tão importante segue de modo alterado sendo produzida em quantidades elevadas e acarretando problemas para a saúde. Quando este defeito ocorre antes da adolescência, a criança passa a ter um crescimento exagerado podendo alcançar uma altura desproporcional atingindo bem mais de 2metros, gerando além de problemas de saúde dificuldades sociais. Este fenômeno é chamado de gigantismo.
Esta doença, contudo, atinge com maior freqüência os adultos. Como nesta fase os ossos já não podem mais crescer em altura, o indivíduo passa a ter somente o crescimento das extremidades como as mãos, pés e os ossos da face. Neste contexto, a doença passa a se chamar acromegalia. Além das deformidades externas que a doença causa, gerando problemas de ordem emocional importantes, os órgãos internos sofrem alterações que comprometem a saúde causando aumento do coração, hipertensão, problemas de respiração e pulmonares, diabetes, lesões articulares dentre outras. Este conjunto de afecções comprometem a expectativa de vida dos pacientes aumentando a mortalidade em quase duas vezes mais em relação a população geral, além de reduzir marcantemente a qualidade de vida.
A causa desta doença , em 99% dos casos, é o surgimento de um tumor benigno localizado na hipófise que passa a secretar o GH em níveis muito altos. A grande dificuldade encontrada para o tratamento destes pacientes consiste no diagnóstico. Salvo em alguns casos de gigantismo, onde o quadro se torna evidente em alguns meses, na acromegalia o paciente leva anos para perceber as alterações, muitas vezes confundindo com os efeitos do envelhecimento como: a mudança do aspecto do rosto, o ganho de peso e aumento dos pés e mãos (chegando a perder a aliança e tendo que trocar o número dos sapatos), o surgimento de hipertensão e diabetes como sendo alterações comuns a população geral. Além desta evolução insidiosa, por ser uma doença infrequente, ocorre que boa parte dos médicos não tiveram contato com estes pacientes durante a graduação médica o que leva a perda do diagnóstico numa grande parcela dos casos.
O diagnóstico feito por endocrinologistas (especialistas nesta doença) é realizado frequentemente quando especialistas de outras áreas encaminham os pacientes. Dentre as situações mais comuns podem ser citados pacientes vindos da ortopedia por dores nas juntas e ao se observar o tamanho desproporcional das mãos pondera-se a possibilidade de acromegalia. Da mesma forma pacientes são encaminhados por dentistas devido ao espaçamento dos dentes e crescimento do queixo, por pneumologistas devido a roncos noturnos, neurologistas devido a dor de cabeça e etc.
Atualmente o tratamento tem obtido respostas excelentes, com uma grande chance de cura através da cirurgia nos tumores pequenos ou pelo menos com uma grande chance de controle da doença quando combinada a cirurgia e os diversos medicamentos existentes para os casos de tumores maiores.
No momento a maior dificuldade para se obter uma melhora para esses pacientes que sofrem desta doença é torná-la mais conhecida para que o diagnóstico possa ser feito, especialmente precocemente, e o tratamento instituído o mais rápido possível.
* Felipe Gaia Duarte, médico endocrinologista da Unidade de Neuroendocrinologia do HC-FMUSP.