PROTOCOLO MULTICULTURAL (II): NEGOCIANDO COM JAPONESES

Edvalda Bomfim
O Protocolo que até pouco tempo era uma atividade restrita ao mundo diplomático e aos atos oficiais como fator determinante da ordem de precedência, vem, no âmbito da comunicação global, se adaptando às novas realidades e se caracterizando como a "ciência da excelência", indispensável, inclusive, na atividade dos executivos, ou seja, as pessoas com responsabilidades nas empresas, nas instituições públicas ou até mesmo na política.
Uma das aptidões necessárias a todos aqueles que têm que administrar ou de executar ações que emanan do cargo, consiste em saber relacionar-se com o fenômeno da comunicação dentro e fora do seu ambiente de trabalho. Hoje, não só se deve saber fazer, como saber dizer e saber estar, principalmente, em ambientes fora do contexto cultural dos interlocutores. Perceber diferenças que separam povos e nações e conhecer as regras de conduta, os tabus, os aspectos culturais , as fórmulas de tratamento, maneira de cumprimentar, entre outras peculiaridades, é uma condição essencial para garantir o sucesso de uma estratégia comercial ou oficial no exterior. O negociador bem sucedido é aquele que quando se encontra fora do seu país, não perde de vista as diferenças existentes no fator cultural e procura lidar adequadamente com elas.
Segundo a literatura especializada, a cultura de negociação do Japão é completamente diferente do resto do mundo. Enquanto para os americanos, por exemplo "tempo é dinheiro" para os japoneses é normal ser dispendido uma parcela de tempo consideravél e uma boa soma de dinheiro para conhecer e estabelecer uma relação de confiança com aqueles com quem tencionam fazer negócios. As reuniões são de grande importância, mas não têm o mesmo sentido do ocidente, ou seja, não são fóruns de tomadas de decisões. Significam oportunidades em que a percepção do interlocutor é formada e este por sua vez para ter sucesso precisa estar atento e considerar que vai ser julgado muito mais pelo seu comportamento que pelo que apresentar por escrito.
A base da etiqueta japonesa é o respeito pela hierarquia. As pessoas mais velhas são tratadas com grande deferência e respeito, mesmo no ambiente corporativo. Em nenhuma outra cultura é tão importante ser sutil, delicado e cortês. A paciência e a serenidade também são duas virtudes muito cultivadas. No que se refere aos cumprimentos, é um ritual complicado e que tem regras precisas. Deve-se começar cumprimentando as pessoas mais velhas presente ao ambiente. Os homens cumprimentam-se dobrando o corpo para a frente a partir da cintura, baixando os olhos, e os braços deslizando ao longo do corpo na direção dos joelhos. Se for mulher deve ser cumprimentada, inclinando-se da mesma forma, porém as mãos devem ser cruzadas sobre as coxas. Perante um superior, os japoneses saem da sua presença andando sem virar-lhe as costas.
A pontualidade é rigorosa na cultura japonesa, qualquer atraso por menor que seja é considerado uma descortesia e não vale a pena justificar. As aparências são muito importantes. Por isso, o vestuário deve ser formal e o mais bem cuidado possível. A atenção à postura e aos gestos são fundamentais, pois a cultura japonesa é essencilamente não verbal. A atitude deve ser serena e comedida, a pressa e o estresse devem ser esquecidos. Tendencialmente, os japoneses não mantém contato visual, ao longo dos séculos manter os olhos baixos vem significando uma posição de respeito e humildade.
Os cartões de visita (meishi) são ferramentas imprescindíveis. Os japoneses são "trocadores" compulsivos de cartões, nenhuma relação de negócios terá início sem esta troca e os mesmos têm valor de documento. Por esta razão as informações contidas devem estar atualizadas, fiéis e com uma boa tradução para o inglês. A menção ao cargo é fundamental e se a organização a que o executivo pertencer for antiga é aconselhavel fazer menção à data de fundação, pois este é um aspecto que para eles, imprime confiança. Os cartões são entregues no momento das apresentações, com o nome virado para o recebedor e sendo segurado com as duas mãos em sinal de deferência. Guardar um cartão que lhe foi entregue sem ler , significa uma grave falta de consideração.
A cor branca é associada ao luto, por esta razão os brindes a serem ofertados nunca devem ser embrulhados com papel desta cor. Nada também que represente o número 4 ou 9. A simbologia gráfica do 4 é idêntica a da morte e a do 9, da dor. A escrita japonesa é constituida de ideogramas e o mesmo símbolo é usado para diferentes significados. Assim, mesmo que sejam objetos diferentes, mas que perfaçam o número 4 ou 9 deve ser evitado. Se for convidado para casa de um japonês a pessoa nunca deve levar flores. No Japão só se oferece flores aos namorados ou então a pessoas doentes ou em caso de luto. Não se deve dar gorjetas, eles orgulham-se de ter o melhor serviço do mundo e acham que as gorjetas são desnecessárias.
Reconhecidos como um dos povos mais corteses no mundo, os japoneses vêm se preocupando com a deteriorização da boa educação em público, principalmente dos jovens. Um estudo divulgado recentemente revelou este fato e foi percebido que é nos transportes públicos que a maioria dos culpados pela crise das boas maneiras se concentra. Para acabar com a indisciplina, a cidade de Yokohama foi pioneira na criação do Esquadrão da Etiqueta que é formado por agentes com de mais 60 anos e familiarizados com o refinamento dos padrões de conduta do Japão de antigamente. Uniformizados para dar maior peso as suas repreensões, entre outras tarefas esses agentes estão pedindo, delicadamente, aos passageiros indisciplinados mudanças nos seus hábitos.
Na verdade, eles não têm poder de polícia, mas tentam fazer com que seus conselhos sejam aceitos até pelos mais teimosos e esperam que com as suas refinadas capacidades sociais convençam ou envergonhem os transgressores da Etiqueta. Os japoneses dá ao ocidente, com esta atitude, um exemplo sócio-educativo da melhor qualidade na busca pela sustentabilidade dos valores que alicerçam a cidadania.
*Edvalda Bomfim é graduada em História, pós-graduada em Administração e Organização de Eventos Públicos e Privados e em Educação a Distância. Membro do Conselho Nacional de Cerimonial Público e da Associação Portuguesa de Estudos do Protocolo.
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