A ÉTICA E A MORAL DA CNBB

Isaac Marambaia
Já externei, em algumas oportunidades, que os bispos da igreja Católica se auto revestem da autoridade de estabelecer e cobrar princípios morais, éticos e comportamentais, como se eles detivessem a exclusividade do conhecimento e da razão.
Tem sido assim durante milênios e não poucas vezes a igreja Católica apoiou-se no poder do totalitarismo, para impor os seus dogmas, ainda que para tanto fosse necessário perseguir e/ou eliminar fisicamente seus oponentes.
As cruzadas e a Santa Inquisição serviram ao propósito de subjugar povos aos seus pensamentos e silenciar os dissonantes.
Para os desvios moral e ético cometidos pelos seus parceiros, reis e fidalgos poderosos, a igreja Católica oferecia a opção da compra do perdão mediante aquisição, documental, da indulgência pontifícia. Quem dispusesse de maiores posses podia obter maior período de indulgências que colocava o indulgenciado fora do alcance da ira divina, qualquer que fosse o deslize ético, moral e comportamental praticado.
Durante a segunda guerra mundial a igreja Católica fez-se de cega, surda e muda diante do horror nazista. Essa postura ensejou que o Papa João Paulo II dirigisse um lacônico pedido de perdão, à civilização cristã, pela conivência da santa igreja.
No Brasil colônia ela acobertou e se utilizou da escravidão dos negros, foi detentora privilegiada de grandes latifúndios, além de contribuir para a subjugação e o genocídio do povo indígena em toda a América. A igreja Católica compactuou com o saque da riqueza material e com a violência contra a cultura e crenças das nações indígenas, sempre convalidando as ações dos ocupantes invasores.
Todos sabemos dos vínculos que ligam a CNBB à criação, evolução e consolidação do Partido dos Trabalhadores, até a sua ascensão ao poder. Pode-se até afirmar, sem nenhum demérito para quaisquer das partes, que ela é a criadora e o PT a sua criatura.
Desde que eclodiu o escândalo do mensalão, seguido das constatações de uso indiscriminado do tráfico de influência, superfaturamento de contratos nas estatais, lavagem de dinheiro pela máquina partidária petista, sonegação fiscal, licitações viciadas, assassinatos políticos, empréstimos fraudulentos, sanguessugas, etc., a CNBB fugiu da crítica sobre a postura ética do PT e do governo Lula.
Por absoluta conveniência a CNBB preferiu afirmar, pelo seu então presidente, Bispo Geraldo Magela Agnelo e por Dom Luciano Mendes, que considerava graves as primeiras denúncias, mas pediu cautela quanto à veracidade das mesmas em razão dos antecedentes do seu autor. Estava a se referir ao deputado federal Roberto Jefferson, justamente sobre quem o presidente Lula afirmou que entregaria um cheque em branco para, em seguida, dormir tranqüilo.
Passada a fase das apurações e mesmo diante do estarrecimento da nação brasileira a CNBB preferiu não lancetar o tumor que, por origem, também é seu.
No programa de rádio Fala Presidente do dia 24.04.2007, o senhor Luiz Inácio Lula da Silva exibiu o seu mais profundo sentimento de impunidade e de desrespeito à ética e à liturgia para com o cargo de chefe de estado e de governo da nação.
Referindo-se ao brasilianista Mangabeira Unger ( brasileiro radicado nos Estados Unidos que passou a conhecer os problemas do país através da leitura de livros e matérias disponíveis em bibliotecas norte-americanas ), para quem criou o Ministério do Futuro, Lula fez a seguinte consideração: “Mudei eu? Nani, nani. Republicanamente, mudou ele, que já descascou em cima de mim... disse que meu governo era o mais corrupto da história desse país. Pediu para o congresso me impichá... Falou o escambau de mim, viu? Pois o tempo passou e eu agora meti ele no bolso.
É meu ministro do futuro!” Ou seja gente, nada como um dia atrás do
outro e com um a popularidade alta no meio.
A CNBB quer confissão mais explicita?
Na oportunidade da visita do papa Bento XVI, ao Brasil, nesta segunda semana do mês de maio de 2007 e no calor da sua 45ª Assembléia Geral, a CNBB manifesta preocupação com a crise ética vivida pelo Congresso Nacional e com os fortes indícios de corrupção no poder judiciário brasileiro.
Seria tudo muito certo, justo e elogiável, no documento da CNBB, não fosse o deliberado propósito de omitir, despudoradamente, a corrupção e o banditismo praticados no poder executivo cujos mentores e operadores são, nada mais nada menos, os seus pimpolhos.
Muito parecido com as práticas de abuso sexual e de pedofilia cada vez mais presentes no interior das igrejas, conventos e outros que tais e cujo silêncio tem sido a resposta desses áulicos da decência, da moral e dos bons costumes.
No último ano e meio, somente nos Estados Unidos da América, a igreja católica foi obrigada a indenizar (se é que é possível) em mais de U$$ 100 milhões, famílias de jovens e crianças molestadas sexualmente por padres, bispos e, pasmem, um cardeal. No Brasil e em todo continente americano não tem sido diferente.
Com esse curriculum creio que a CNBB deveria avaliar melhor suas intempestivas manifestações críticas e se voltar para a orientação e fiscalização dos seus integrantes e daqueles surgidos sob o seu manto protetor.
Se a CNBB quer contribuir para a melhoria da qualidade do ser humano e da sociedade, deve, como exemplo ético, não flexibilizar os princípios, conceitos e ações, que largamente enunciam, em função do grau de relacionamento que tenha com o infrator, criminoso ou bandido.
O fato dos gravíssimos crimes cometidos no governo Lula terem sido coordenados e executados por dirigente e militantes do PT, não confere direito à CNBB silenciar em contraposição a expectativa de forte indignação.
compreensão popular diz que ?o pior cego é aquele que enxerga e não quer ver?. Na situação presente é apropriado dizer que o pior e repugnante cego é o que enxerga, vê e não lhe convém repudiar, por ordem ou cumplicidade.
Não se pode esquecer o exemplo dado pelo ator global Paulo Bete, que em defesa das falcatruas petista e lulista argumentou não ser possível fazer política sem se sujar as mãos.
Maior descaramento é impossível.
Isaac Marambaia é economista, consultor, foi vice-prefeito de Camaçari e deputado estadual em três legislaturas. [email protected]