O Brasil dos juros altos e os impactos silenciosos na economia da Bahia
Enquanto grande parte do mercado celebra as taxas históricas oferecidas pelo Tesouro Direto, existe uma discussão que precisa ir além da rentabilidade dos investimentos. Quando títulos públicos passam a pagar perto de IPCA + 8,2% ao ano, estamos diante de um fenômeno que beneficia investidores, mas que também produz efeitos relevantes sobre a economia real.
Na Bahia, onde 77,3% das famílias de Salvador possuem algum tipo de endividamento [o maior nível registrado em mais de 15 anos, segundo levantamento da Fecomércio-BA], os juros elevados tendem a encarecer ainda mais o crédito, reduzir investimentos produtivos e dificultar a expansão dos negócios.
Para entender a dimensão desse cenário, basta uma comparação simples. Com uma aplicação de R$ 100 mil em títulos indexados à inflação nesse patamar, é possível dobrar o capital em poucos anos em um dos ativos mais seguros do mercado brasileiro. A pergunta que surge é inevitável: quantos negócios conseguem entregar esse mesmo retorno assumindo riscos, gerando empregos, pagando impostos e movimentando a economia?
A resposta ajuda a explicar um dos principais desafios do Brasil. Quando a renda fixa oferece ganhos tão elevados, o capital naturalmente migra para investimentos de baixo risco. O resultado é a redução do interesse em financiar novas empresas, ampliar fábricas, investir em tecnologia ou participar de projetos de infraestrutura.
Aqui na Bahia, os efeitos dessa dinâmica merecem atenção especial. Em um estado que ainda busca ampliar sua competitividade econômica e atrair investimentos, juros elevados representam um obstáculo adicional para empresários e empreendedores.
Os títulos públicos servem como referência para toda a estrutura de juros da economia. Se o governo precisa pagar mais para captar recursos, o crédito também fica mais caro para empresas e consumidores. É um efeito que chega diretamente ao cotidiano das famílias e à capacidade de investimento das empresas.
Quando um investidor consegue dobrar seu patrimônio em poucos anos aplicando em um dos ativos mais seguros do mercado, sem gerar empregos, assumir riscos ou injetar recursos na economia real, cria-se uma distorção. Poucos negócios no Brasil conseguem entregar uma rentabilidade semelhante. Não é um ambiente saudável para um país que precisa estimular produção, geração de renda e crescimento econômico.
Outro conceito importante nesse contexto é o chamado spread, que representa a diferença entre o custo de captação dos recursos e a taxa efetivamente cobrada pelos bancos. Em períodos de maior incerteza econômica, essa margem aumenta para compensar riscos de inadimplência e volatilidade. Na prática, isso significa empréstimos mais caros e acesso mais difícil ao crédito.
O problema é que, enquanto investidores encontram oportunidades atrativas na renda fixa, milhares de empresas enfrentam custos financeiros cada vez maiores para crescer. Muitos projetos deixam de sair do papel porque o retorno exigido pelo mercado se torna elevado demais.
Os reflexos também alcançam iniciativas públicas. Projetos de infraestrutura, concessões e parcerias público-privadas passam a disputar recursos com títulos federais que oferecem alta rentabilidade e baixo risco. Consequentemente, investidores exigem retornos maiores para financiar obras e empreendimentos estratégicos.
Não se trata de criticar os investimentos em renda fixa, que cumprem um papel importante na economia. O ponto central é refletir sobre o equilíbrio. Nenhum país cresce de forma sustentável quando o capital encontra mais incentivos para permanecer aplicado em ativos financeiros do que para financiar produção, inovação e geração de empregos.
Como esse fenômeno ultrapassa o universo dos investimentos e impacta diretamente o desenvolvimento econômico, a discussão sobre juros não deve interessar apenas a economistas ou investidores. Ela afeta o crédito, o consumo, os investimentos, a geração de empregos e as oportunidades de empreender. Por isso, precisa fazer parte do debate sobre o futuro econômico da Bahia e do Brasil.
*Vinicius Assis é economista, MBA em Macroeconomia, fundador e CEO da Ônix Capital
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