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Sobre memória, esquecimento e a hora do voto

Por Luiz Fernando Lima

Sobre memória, esquecimento e a hora do voto
Foto: Acervo pessoal

Entre tarifaço, derrota da seleção na Copa do Mundo e o amplo alcance do nefasto esquema do Banco Master, a população vai sendo chamada a prestar atenção nas eleições de outubro. Nenhum desses fatos, por mais grave que pareça hoje, chega sozinho até o eleitor na solidão da urna. Será preciso muitos empurrões e repetições.

 

Explico: de dark horse a dólares e euros encontrados em hotel, de festas nababescas a pelelecas, nada disso, em absoluto, estará pesando quando o eleitor apertar os números na urna digital, a não ser que alguém, com interesse eleitoral e profissionalmente capacitado, se encarregue de manter esses assuntos vivos na campanha, sobretudo na reta final.

 

Parece exagero? Não é: o Datafolha, divulgado no fim de junho, escancarou o tamanho do esquecimento: 68% dos brasileiros não souberam citar de cabeça um deputado federal em mandato, e 75% não lembraram nenhum senador. Pior, 67% não se recordam em quem votaram para deputado federal há quatro anos, índice quase igual ao dos que não se recordam da escolha para senador e deputado estadual.

 

Agora compare com outro número da mesma pesquisa: 85% dos entrevistados lembram exatamente em quem votaram para presidente. Essa diferença explica tudo. O eleitor brasileiro, e o baiano não foge à regra, não se esquece de política porque é desinteressado. Esquece-se de cargo sem rosto fixo na rotina. Guarda quem ocupa o centro do noticiário todos os dias e descarta o resto rápido.

 

Esse mecanismo explica, ponto por ponto, o impacto (ou ausência dele) do calendário político baiano dos últimos meses. O ano eleitoral por aqui sempre é aberto com a Lavagem do Bonfim. Pergunto a você, leitor e leitora: lembra de algo relevante a respeito da caminhada entre a Conceição da Praia e a Colina Sagrada? Depois do Carnaval, a política pega fogo, e foram semanas de especulação sobre quem seria o vice de ACM Neto (UB) até a confirmação do ex-prefeito de Jequié no posto. Assunto de bastidor tratado como novela por quem acompanha de perto. Pergunte na rua e veja quantos lembram os detalhes.

 

O mesmo vale para o cerco que o vice-governador Geraldo Júnior (MDB) sofreu dentro do próprio grupo governista antes de ser bancado pelo senador Jaques Wagner na chapa. Período hostil e desrespeitoso com quem ocupa cargo tão relevante na política baiana, e que já não repercute como esperado. Depois desses episódios veio o São João. Zero repercussão política com cauda longa.

 

O 2 de Julho passou e com ele, as manifestações das claques também tendem a ser sugadas para a vala do esquecimento. Quem acompanhou o noticiário viu as vaias de um lado e de outro, dias depois, poucos se recordam ao certo e a maioria dos que se recordam atribuem os protestos às claques organizadas.

 

A pergunta que interessa, então, é outra: o que sobrevive até 4 de outubro? A resposta tem menos a ver com a gravidade do fato e mais com quem tem fôlego financeiro para repetir a mesma mensagem com consistência, em todos os canais disponíveis, até o eleitor decorar. É aí que entra o papel da comunicação de campanha. Ela não compete com o escândalo pela atenção do eleitor. Ela ocupa o vácuo que o escândalo deixa assim que a imprensa muda de pauta. O fato depende de terceiros para seguir vivo. A campanha comanda seu próprio calendário de repetição, sem depender de ninguém.

 

Mensalão e Lava Jato são exceções que confirmam a regra. Marcaram gerações inteiras de eleitores porque tiveram anos de reforço institucional: depoimento, prisão, condenação, cada capítulo reabrindo a ferida. Não é a exceção derrubando o argumento. É a regra levada ao extremo.
Faltam menos de três meses. O jogo eleitoral está só começando, e o eleitor em disputa tem a atenção puxada para uma infinidade de estímulos definidos por algoritmo. A pauta política é secundária neste ponto e às campanhas cabe construir narrativas, repetir argumento e construir uma reputação que resista aos ataques e sensibilize o eleitor até o momento de depositar o voto.

 

*Luiz Fernando Lima é jornalista

 

*Os artigos reproduzidos neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do Bahia Notícias