Mapas visíveis e invisíveis
Há lugares que inspiram livros.
E há livros que nos levam para dentro de lugares.
Muitas vezes uma paisagem atravessa a gente sem pedir licença. O vento de uma estrada, o silêncio de uma vila, a luz dourada do fim da tarde, o barulho do mar, uma conversa escutada quase por acaso. E, sem perceber, começamos a carregar aquele lugar dentro de nós.
Acredito que tenha sido assim para muitos escritores. E talvez seja assim com todos os leitores.
Porque um lugar não inspira apenas pela beleza. Ele inspira pela experiência. Pelo que sentimos quando estamos ali. Pela forma como o tempo parece desacelerar. Pelo jeito como certas paisagens conseguem nos lembrar de coisas que nem sabíamos que estavam guardadas.
Então nasce um livro.
E o curioso é que, depois disso, acontece o caminho inverso.
O livro passa a inspirar viagens.
Alguém lê uma história e sente vontade de conhecer aquela rua, aquele rio, aquela cidade, aquela janela de onde o personagem olhava o mundo. Assim como a vontade de sentir aromas, apreciar sabores e dançar algo completamente diferente do que estamos acostumados no nosso dia a dia. A literatura cria mapas invisíveis. Faz o leitor viajar antes mesmo de arrumar as malas.
Talvez seja por isso que algumas viagens comecem muito antes da estrada. E talvez certos lugares nunca mais sejam apenas lugares depois que viram literatura. Eles passam a carregar memória, imaginação, afeto e permanência.
Porque viajar e ler têm algo profundamente parecido: ambos nos levam para fora de nós mesmos — e, ao mesmo tempo, nos aproximam daquilo que realmente somos.
Aí acontece uma outra viagem: a viagem para dentro de nós mesmos.
Há lugares e livros que promovem esse mergulho interior. Lugares que silenciam o barulho do mundo por alguns instantes e fazem a gente ouvir pensamentos que estavam esquecidos. Livros que, sem percebermos, acendem perguntas antigas, despertam memórias adormecidas e nos devolvem partes nossas que estavam escondidas sob a pressa da vida cotidiana.
E então entendemos que algumas viagens não servem apenas para conhecer paisagens. Elas servem para reorganizar delicadamente aquilo que estava desalinhado dentro da gente.
É quando o lado de fora encontra o lado de dentro.
E, quando tudo se encontra, a magia acontece.
Você já experimentou visitar o cenário do seu livro preferido?
Caminhar sobre as dunas de Mangue Seco (Tieta do Agreste), desbravar os sertões de Canudos (A Guerra do Fim do Mundo), percorrer o Vale do Pati (Ouvindo o Vento) e, tendo o céu como um manto de luz, atravessar os caminhos invisíveis dos encontros e reencontros (Sob as Estrelas).
É mágico sentir a areia fina escorrer entre os dedos, o suor deslizar pelo pescoço enquanto desviamos de arbustos e espinhos, mergulhar nas águas frias da Chapada Diamantina e, então, olhar o céu, banhar-se sob a luz das estrelas e percorrer o caminho íntimo de si mesmo.
Te convido a viver essa tripla experiência: ler, visitar e mergulhar em si mesmo nessa viagem extraordinária.
*Jealva Ávila é arquiteta, secretária de Turismo de Jandaíra e escritora. Autora do livro Sob as Estrelas – Contos, Encantos e Reencontro (Tear Editora)
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