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Cultura independente à própria sorte

Por Daniela Cháves

Cultura independente à própria sorte
Foto: Divulgação

Desde março de 2023, a Casa do Improviso se constituiu como um raro exemplo de iniciativa cultural independente em Salvador: um espaço erguido não por políticas públicas estruturantes, mas pela insistência de artistas que decidiram investir, com recursos próprios e redes de afeto, na criação de um território vivo para as artes cênicas.

 

Ao longo de dois anos, a Casa operou como escola, espaço de criação, palco e ponto de encontro, sustentando uma programação contínua que mobilizou centenas de pessoas e fomentou a cadeia produtiva das artes da cena na cidade. No entanto, por trás dessa vitalidade, consolidava-se também um percurso marcado por sucessivas negativas institucionais.

 

Entre março e junho de 2023, foram formalizadas tentativas de diálogo com a Fundação Cultural Gregório de Mattos (FGM), órgão vinculado à Prefeitura de Salvador, solicitando apoio básico para a continuidade das atividades — desde materiais de construção para a manutenção do espaço até a emissão de uma carta de reconhecimento institucional que possibilitasse a captação de recursos junto a outras instâncias. Ambas as solicitações foram negadas. Negou-se, assim, não apenas o suporte material, mas também a possibilidade de legitimação de um equipamento cultural já em pleno funcionamento.

 

Desde novembro de 2025, já após a perda da sede, seguimos em diálogo com a mesma Fundação na expectativa de viabilização de espaços públicos que possam acolher, ainda que provisoriamente, nossas atividades. Se, por um lado, as negativas e limitações institucionais podem ser compreendidas diante das próprias restrições estruturais das quais a Fundação depende, por outro, permanece em aberto uma questão fundamental: quais são, de fato, os caminhos concretos de mediação e solução oferecidos a iniciativas independentes nesses casos? Sem retornos objetivos, o diálogo tende a se esvaziar em ciclos improdutivos, onde a insistência dos proponentes se vê girando em torno de si mesma — consumindo tempo, energia e urgência.

 

No início de 2025, antes mesmo da notícia da rescisão antecipada do contrato de locação, a Casa já se preparava para ingressar com recurso junto à Secretaria da Fazenda do Município (SEFAZ), também órgão da Prefeitura de Salvador, diante dos valores de IPTU aplicados ao imóvel sob regime de locação comercial — valores estes que se mostraram absolutamente incompatíveis com as reais possibilidades de captação de recursos de um empreendimento cultural independente. A formalização jurídica exigida do setor não encontra correspondência em políticas fiscais que compreendam sua natureza e fragilidade econômica.

 

No ano anterior, entre agosto e setembro de 2024, a tentativa de regularização formal da Casa como empreendimento cultural esbarrou em mais um impasse: o indeferimento do alvará de funcionamento pela Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano (SEDUR), também órgão da Prefeitura de Salvador, sob a justificativa de não adequação a parâmetros estruturais que, na prática, ignoram as condições reais de existência dos espaços culturais independentes. Exige-se da precariedade o cumprimento de padrões que sequer são acompanhados por políticas de fomento equivalentes.

 

Esse conjunto de recusas, somado à pressão fiscal e às barreiras regulatórias, todas oriundas de diferentes órgãos da própria gestão municipal, revela uma contradição estrutural: ao mesmo tempo em que se reconhece discursivamente a importância da cultura independente para o tecido social e artístico da cidade, inviabilizam-se, na prática, as condições mínimas para sua sustentação.

 

A rescisão antecipada do contrato de locação, em março de 2025, não pode, portanto, ser compreendida como um episódio isolado. Ela se insere em um contexto mais amplo de ausência de políticas efetivas de apoio, regulação e permanência para espaços culturais autônomos — especialmente aqueles que operam fora das lógicas hegemônicas de financiamento.

 

Hoje, na tentativa de manter viva essa rede construída coletivamente, a Casa do Improviso segue mobilizando sua comunidade através da campanha “Levantando a Casa”, com vaquinha aberta para reconstrução de suas atividades. O acesso pode ser feito através do link disponível na bio do Instagram @casaimprovisosalvador.

 

Não é apenas um endereço que se perdeu, mas um modelo de cidade que ainda encontra dificuldade em reconhecer, sustentar e proteger iniciativas que nascem da urgência, da coletividade e do compromisso com a formação artística e humana da população. Porque quando um espaço cultural independente fecha, não é apenas uma porta que se encerra — é uma rede inteira que se fragiliza.

 

*Daniela Cháves é criadora cênica e gestora cultural da Casa do Improviso Salvador

 

*Os artigos reproduzidos neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do Bahia Notícias