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Violência política segue como barreira persistente para mulheres que ousam liderar no Brasil

Por Guilma Soares

Violência política segue como barreira persistente para mulheres que ousam liderar no Brasil
Foto: Acervo pessoal

A violência política contra as mulheres não é um conceito distante ou apenas acadêmico. Ela é real, cotidiana e, muitas vezes, silenciosa. Ao longo da minha trajetória, inclusive na experiência que tive como prefeita de Nova Redenção, senti na pele como essa violência se manifesta para além do físico. Ela aparece de forma psicológica, moral e simbólica, tentando o tempo todo nos deslegitimar, nos diminuir e questionar nossa capacidade de ocupar espaços de poder.

 

Quando escrevi sobre o tema, destaquei que “a violência política contra a mulher ocorre quando há a intenção de deslegitimar o exercício dos seus direitos políticos”. Essa não é apenas uma definição jurídica, é uma realidade vivida por muitas de nós. Não se trata apenas de impedir candidaturas, mas de criar um ambiente hostil que afasta, desgasta e silencia mulheres que ousam ocupar posições de liderança.

 

Durante minha atuação na vida pública, percebi que a cobrança sobre as mulheres é sempre maior. Existe uma expectativa constante de erro, como se estivéssemos sempre em teste. Ao mesmo tempo, qualquer posicionamento mais firme é interpretado como exagero, enquanto atitudes semelhantes, quando partem de homens, são vistas como liderança. Esse padrão revela o quanto ainda estamos inseridos em uma estrutura marcada por desigualdades.

 

Quando a violência não deixa marcas visíveis

 

Nem toda violência deixa marcas físicas, mas isso não a torna menos grave. A violência psicológica, por exemplo, se manifesta por meio de ataques à autoestima, questionamentos constantes e tentativas de isolamento político. Já a violência moral aparece em discursos que buscam desacreditar a imagem pública da mulher. São estratégias que, muitas vezes, passam despercebidas, mas que têm como objetivo enfraquecer nossa presença nos espaços de decisão.

 

No artigo que desenvolvi, ressaltei que a violência política pode assumir diversas formas, incluindo a simbólica, que ocorre quando a mulher é interrompida, ignorada ou impedida de exercer plenamente sua função. Essa é uma das mais comuns no ambiente político. Quantas vezes mulheres são interrompidas em reuniões, têm suas falas desconsideradas ou precisam reafirmar o que já disseram para serem ouvidas?

 

Casos que expõem a gravidade do problema

 

Casos emblemáticos no Brasil mostram que essa violência pode chegar a níveis extremos, incluindo ameaças e até assassinatos. Um dos exemplos mais marcantes foi o da vereadora Marielle Franco, uma mulher negra que teve sua trajetória interrompida de forma brutal. Outro caso que também marcou o debate nacional foi o de Manuela D’Ávila, que sofreu uma onda de ataques misóginos quando concorreu como vice-presidente ao lado de Fernando Haddad nas eleições de 2018.

 

A legislação brasileira avançou ao reconhecer essa realidade. A Lei nº 14.192/2021 foi um marco importante ao criminalizar a violência política contra a mulher. Ela estabelece que qualquer ação que tenha como objetivo impedir, dificultar ou restringir os direitos políticos das mulheres deve ser combatida. Esse avanço é fundamental, mas ainda há um longo caminho entre a lei e a prática.

 

Outro ponto preocupante é como a violência política também se manifesta no ambiente digital. As redes sociais se tornaram um espaço onde ataques são disseminados com rapidez, muitas vezes com conteúdo misógino e ofensivo. Mulheres públicas são frequentemente alvo de comentários que não têm relação com sua atuação política, mas com sua aparência, vida pessoal ou condição de gênero.

 

O futuro da política também passa pelas mulheres

 

Apesar de todos esses desafios, acredito que estamos vivendo um momento de transformação. Cada vez mais mulheres têm ocupado espaços de poder e se posicionado de forma firme. Esse movimento é essencial para mudar a cultura política do país. Quanto mais mulheres estiverem presentes, mais difícil será sustentar práticas que tentam nos excluir.

 

A política feita por mulheres tem um olhar diferente, mais atento às questões sociais, à inclusão e ao cuidado com as pessoas. Não se trata de superioridade, mas de diversidade. Uma democracia verdadeira precisa refletir a pluralidade da sociedade, e isso inclui garantir que mulheres tenham voz, espaço e respeito.

 

Eu acredito em um futuro onde a presença feminina na política não seja exceção, mas regra. Um cenário onde meninas cresçam vendo mulheres em posições de liderança sem que isso seja questionado. E, principalmente, um ambiente político onde nenhuma mulher precise provar o tempo todo que merece estar ali. Esse é o caminho que precisamos construir, com coragem, resistência e união.

 

*Guilma Soares é advogada e ex-prefeita de Nova Redenção

 

*Os artigos reproduzidos neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do Bahia Notícias