Edgard Santos e o futuro da universidade federal em Conquista
Ao ler o livro “Edgard Santos e a reinvenção da Bahia”, de Antonio Risério, somos convidados a revisitar um momento singular da história do ensino superior no estado. Ali aparece a figura de Edgard Santos, primeiro reitor da Universidade Federal da Bahia, como um homem movido por uma característica que hoje parece rara na vida pública: a coragem de pensar grande.
Risério escreve que Edgard “nunca teve medo da ousadia nem da grandeza”. Pelo contrário, cultivava essas duas virtudes. E talvez seja exatamente essa a lição que a Bahia mais precisa reencontrar. Edgard Santos liderou um projeto que transformou a universidade em um motor cultural, científico e intelectual. Sob sua visão, a universidade não era apenas um espaço de formação profissional, mas um instrumento de transformação da sociedade. Era um projeto de futuro.
Essa reflexão ganha um significado especial quando pensamos no campus da Universidade Federal da Bahia em Vitória da Conquista. Instalado no interior do estado, ele representa um passo importante na interiorização do ensino superior público e na democratização do acesso ao conhecimento. Mas também nos coloca diante de um desafio histórico.
A região sudoeste já demonstrou possuir densidade econômica, populacional e acadêmica suficiente para dar um novo salto institucional. Faz tempo que consolidou entre lideranças acadêmicas, políticas e sociais a ideia de transformar o campus local na Universidade Federal do Sudoeste da Bahia, com autonomia administrativa, reitoria própria e orçamento independente.
Experiências semelhantes já ocorreram na Bahia, como a Universidade Federal do Recôncavo, fundada em 2005, a Federal do Oeste, criada em 2013, e a Federal do Sul da Bahia, criada também em 2013. Em todo o país, diversos campi avançados se transformaram em universidades autônomas, ampliando cursos, pesquisas e investimentos regionais. A universidade, quando ganha autonomia, torna-se ainda mais capaz de ampliar o desenvolvimento.
Outro desafio que simboliza essa mesma luta é a implantação de um hospital universitário em Vitória da Conquista. O equipamento não representaria apenas uma estrutura de saúde, mas a consolidação de um polo de ensino, pesquisa e assistência para toda a região sudoeste. Um hospital universitário fortalece o SUS, amplia a formação médica e atrai investimentos científicos.
Hoje, a nossa macrorregião ainda possui número de leitos abaixo do recomendado e parte significativa das internações de alta complexidade precisa ser encaminhada para Salvador. Isso demonstra que a discussão sobre universidade também é uma discussão sobre desenvolvimento regional.
Vitória da Conquista já é reconhecida como um polo educacional e de saúde no interior baiano. A consolidação de uma universidade federal plena, acompanhada de um hospital universitário, ampliaria ainda mais esse papel estratégico. Nada disso acontecerá, porém, sem mobilização. Por isso, temos debatido esse tema na Câmara de Vereadores juntamente com a reitoria da UFBA, professores, especialistas e a comunidade em geral.
Grandes instituições não surgem apenas por decisões administrativas. Elas nascem de projetos coletivos, de lideranças que acreditam na grandeza do que estão construindo e de uma sociedade que decide lutar por seu futuro.
Foi assim com Edgard Santos. Talvez seja esse o convite que a história nos faz agora: recuperar a coragem de ousar. Pensar grande. Construir instituições que não sirvam apenas ao presente, mas às próximas gerações. Se a Bahia já foi capaz de reinventar sua universidade no passado, nada impede que o sudoeste baiano ajude a escrever o próximo capítulo dessa história. E, quem sabe, como sugere Antonio Risério, a Bahia volte mesmo a acordar.
*Ivan Cordeiro é presidente da Câmara de Vitória da Conquista
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