Quando o mundo se arma, as mulheres morrem
O mundo atravessa um tempo de instabilidade profunda. Conflitos armados se prolongam, alianças se reorganizam e discursos de força substituem negociações diplomáticas. A guerra voltou ao centro da política internacional, seja no confronto entre Rússia e Ucrânia, na escalada de violência envolvendo Israel, Hamas e Irã ou nas tensões entre Estados Unidos e China.
Ignorar que vivemos um processo acelerado de militarização do planeta seria ingenuidade. Consolida-se um clima permanente de guerra: expansão da indústria bélica, naturalização do armamento, fortalecimento de governos autoritários e valorização da força como método de resolução de conflitos.
Quando a política se organiza a partir da guerra, a violência deixa de ser exceção e passa a ser naturalizada. Esse ambiente atravessa sociedades e altera valores. A pedagogia da guerra ensina que eliminar o outro é solução legítima, que a força supera o diálogo e que dominar é mais eficaz do que construir.
As mulheres sentem primeiro os efeitos desse processo. Sociedades mais militarizadas ampliam a circulação de armas e fortalecem masculinidades tóxicas baseadas na imposição. Não é coincidência que radicalização política e armamentismo caminhem junto ao crescimento da violência contra as mulheres.
No Brasil, a onda de feminicídios evidencia uma realidade persistente e brutal. Em 2025, foram registrados 1.568 casos, cerca de cinco mulheres assassinadas por dia apenas por serem mulheres. Esses números mostram que mulheres continuam sendo mortas por parceiros, ex-companheiros ou homens que não aceitam sua autonomia, em uma guerra silenciosa e cotidiana que raramente ocupa as manchetes internacionais, mas destrói famílias e mantém um clima permanente de medo.
Há uma relação estrutural entre a guerra externa e a guerra doméstica, em que ambas operam sob a lógica da dominação, tratando o outro como território a ser controlado. Quando o mundo legitima a violência como instrumento político, legitima também violências cotidianas que sustentam hierarquias dentro de casa. A cultura que exalta armas e líderes autoritários é a mesma que relativiza agressões contra mulheres.
Não se trata de afirmar que conflitos internacionais causam diretamente feminicídios, mas de reconhecer que a escalada global de intolerância, militarização e autoritarismo cria ambientes mais hostis para quem historicamente ocupa posições de vulnerabilidade.
Por isso, discutir paz não é um tema distante da agenda feminista.
Defender a paz é fortalecer convivência democrática, apostar no diálogo e ampliar políticas públicas que garantam autonomia, proteção e educação para a igualdade.
*Nágila Maria é psicóloga e comunicadora política
*Os artigos reproduzidos neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do Bahia Notícias
