A verdade sobre o Carnaval da Barra!
Com todo respeito à nossa Rainha do Axé, Daniela Mercury, a qual me declaro fã, a história do Carnaval da Barra não foi exatamente essa que ela está contando.
Posso afirmar isso, pois participei dos primórdios do seu nascimento até sua consolidação como circuito oficial da folia.
Pra isso, precisarei contar um pouco da minha história e citar alguns personagens que foram importantes e outros que infelizmente não estão mais entre nós.
Como todos sabem, o carnaval de Salvador tinha seu protagonismo no circuito Campo Grande. Ali, de forma inteligente e justa, foi criado pela ABT (Associação de Blocos de Trio) o critério da fila, organizando o desfile dos blocos por ordem de idade (fundação). Isso acabou com a briga existente entre os blocos que disputavam quem sairia na frente do outro, algumas vezes atravessando o trio elétrico na rua e muitas vezes acabando até em agressões. Foi um marco importante pro carnaval de Salvador e normatizou um problema que parecia insolúvel, trazendo paz às agremiações. Um primeiro sinal de união para que se preparassem pro crescimento que estava por vir. Perceberam que podiam se unir em prol dos interesses comuns.
Isso foi muito bom, mas, por outro lado, trouxe um problema. Com essa regra, qualquer novo bloco que surgisse, sairia no final dessa fila e isso era um entrave enorme porque os associados não aceitavam sair tão tarde. Por mais que existisse um grupo de amigos querendo brincar o carnaval juntos, essas novas agremiações não costumavam resistir por mais de dois anos até desistirem.
Foi nesse contexto que, em 1989, fundei com um grupo de amigos o Fecundança que foi o primeiro bloco alternativo do carnaval de Salvador. Por que alternativo? Porque desfilamos no sábado de carnaval no Campo Grande (a tradição era domingo, segunda e terça) utilizando o trio de um bloco tradicional, o Pinel, e, com a estreante cantora Daniela Mercury, que tinha lançado seu primeiro disco com a banda Companhia Clic, mas que no carnaval tinha feito um acordo pra sair como Banda Pinel.
A iniciativa foi maravilhosa, o desfile foi lindo, porém financeiramente foi um desastre. Isso culminou em uma interrupção da nossa trajetória carnavalesca. Ficamos literalmente de fora do carnaval, apesar da paixão permanecer acesa.
Depois disso, tivemos a oportunidade de voltar ao carnaval participando do projeto de revitalização do bloco Cheiro de Amor que foi um grande sucesso: "Cheiro de cara nova!". Esse provavelmente foi o ápice de minha carreira como carnavalesco. Vale ressaltar aqui que o mérito foi de um grupo de amigos que apenas queriam brincar o carnaval, a maioria fundadores do Fecundança original.
Com a minha saída do Cheiro, decidi que era hora de voltar com o Fecundança. Porém, ao constatar o crescimento do mercado de blocos alternativos, que já possuia grandes blocos como Cerveja & Cia, Qual é, Eu Vou, Nú Outro, etc, percebi que não daria pra concorrer com eles. Daí voltei os olhos pro mercado tradicional de domingo, segunda e terça. Tentei fechar um acordo com dois desses blocos pra assumir a gestão, mas as negociações não prosperavam. Era muito difícil pra um carnavalesco aceitar passar o bastão.
Foi quando fui convidado pra uma reunião na Academia da Ladeira com Jorge Roque e o finado Celsão. Eles tinham um bloco alternativo chamado Bróder que, coincidentemente, havia desfilado também com Daniela Mercury.
Ainda me lembro com detalhes de Jorge Roque explanando sobre a sua ideia de "descer pra Barra". Era algo desafiador. Já havia alguns ensaios pontuais na Barra. Alguns blocos já haviam "testado" seus trios na região; o trio elétrico Paes Mendonça, com a própria Daniela já havia se apresentado algumas vezes e, o finado Alberto Trípodi, grande carnavalesco, quando foi coordenador do carnaval de Salvador, havia realizado algumas saídas de trio, mas sempre da Ondina pra Barra.
Confesso que meus olhos brilharam e eu imediatamente "comprei a ideia". Só que Jorge Roque havia se reunido com o Comandante da Polícia Militar à época, conversando sobre a possível descida pra Barra e ele sugeriu que o percurso fosse invertido. Se vários trios levassem o público pro farol da barra não teria escoamento, a Barra iria "explodir". O correto seria da Barra pra Ondina, porque assim as pessoas poderiam seguir para o Rio Vermelho, Garibaldi, etc. Abraçamos essa ideia, e o resto é história!
Voltando à polêmica deste carnaval: não foi Daniela e o Crocodilo que inventaram o Carnaval da Barra. O movimento foi encabeçado por mim e Jorge Roque que fomos os primeiros a anunciarmos que iríamos desfilar na Barra, no domingo, segunda e terça. Fomos chamados de malucos: "Imagine, ir contra uma tradição de 100 anos de avenida...". A verdade é que nós não tínhamos a menor noção da dimensão que isso iria tomar. Apenas estávamos buscando encontrar um espaço que possibilitasse a nossa participação no carnaval.
Pra nossa alegria, a aceitação foi imediata, além da vista icônica, a ventilação, segurança e a logística, potencializaram o Carnaval da Barra e possibilitaram a sua existência até os dias de hoje.
No primeiro ano, além dos dois loucos, acabaram desfilando 5 blocos: Broder, Fecundança, Kassuá, Adrenalina e tinha mais um que agora não me recordo. O clima era muito bom. Um bloco apoiando o outro. Lembro que tínhamos o costume de visitar uns aos outros, só pra saber se estava tudo bem. Literalmente estávamos torcendo uns pelos outros.
Após o carnaval, que foi maravilhoso, mas, como todo começo, economicamente difícil, percebemos que o carnaval da Barra tinha muito futuro, mas carecia de grandes atrações, já que as maiores estavam no Campo Grande e não pareciam sequer enxergar a Barra. Nesse momento, percebemos que nossa única chance de trazer uma artista de peso pro nosso lado, seria Daniela Mercury, que era a artista número 1 do Brasil, com enorme influência na mídia e que estava insatisfeita com seu horário de desfile no Campo Grande. Ela havia migrado do Internacionais que era o primeiro da fila pro Crocodilo que saía tarde.
Vimos então nossa chance e iniciamos a aproximação com Daniela por meio do finado Cacau Bleicker, seu empresário à época, que comprou a ideia de imediato, nos deu total apoio. Inclusive, as reuniões da ABB (Associação de Blocos da Barra) passaram a ser no Canto da Cidade (produtora de Daniela). Porém, ainda levaram dois anos pra se consumar a descida do Crocodilo com Daniela para a Barra, o que ocorreu no Carnaval de 1996.
É inegável o quanto essa vinda de Daniela foi um divisor de águas na história do Carnaval da Barra. Ela deu uma relevância e visibilidade incríveis e, depois dela é que os outros artistas, prefeitura, governo e patrocinadores passaram a enxergar e levar a sério o Carnaval da Barra. Seu desfile no Crocodilo e seu Camarote disputadíssimo, frequentado por celebridades, foram fundamentais para a consolidação do circuito.
Mas dizer que foi Daniela quem criou o carnaval da Barra é um erro. Isso não corresponde a verdade! Não vou entrar no mérito da ordem do desfile. Até onde eu sei o Crocodilo possuía o sexto lugar na ordem de desfile da Barra. De lá pra cá nao acompanhei e, se ela foi "empurrada" pra trás, considero digno que haja uma correção. Ela merece todo o respeito, pela grande artista que ela é e por toda a contribuição que já deu.
Torço pra que haja diálogo e entendimento, e que a magia e a alegria do Carnaval prevaleçam!
*Israel Mizrach é carnavalesco e Fundador da Associação de Blocos da Barra
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