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A Santa Metafóra de Pinóquio Trans

Por Paulett Furacão

A Santa Metafóra de Pinóquio Trans
Foto: Divulgação

Adentramos o mês da Visibilidade Transexuais e Travestis a qual dedica-se nacionalmente a luta por visibilidade e direitos civis, como: Acesso a Retificação do Pré Nome e gênero; Equidade no mercado de trabalho; Acesso a Saúde Integral; Combate a Violência Social, Institucional e Transfeminicídio; Direito a moradia dentre outras pautas.  Pensando na perspectiva a qual o segmento diariamente é submetido pela falta de acesso a políticas públicas e serviços essenciais. Nas dificuldades apresentadas pelo segmento, curiosamente se assemelham aos caminhos percorridos pelo personagem fictício Pinóquio do autor e jornalista italiano Carlo Collodi, popularizado pelos estúdios do cineasta norte-americano Walter Disney. Na história original, um menino de madeira, criado por um carpinteiro, ganha vida e tenta a todo custo se tornar humano de verdade, na investida de pertencer a sociedade a qual está inserido. Trazendo para a triste realidade de pessoas transexuais e travestis, sobretudo no Brasil, sem generalizar a comunidade, por muito tempo, através da pressão sufocante social foi alimentado o desejo de se torna homens e mulheres considerades de “verdade” na expectativa do reforço da binariedade, reproduzindo patologicamente a cisgeneridade dominante. O árduo desejo por passabilidade principalmente para as relações afetivas envolvendo pessoas transexuais e cisgêneras que reforça as práticas de invisibilidade que são observadas no livro “As aventuras de Pinóquio”, a qual são alimentadas pelo personagem principal que desesperado por afeto e acolhimento, nega a sua condição de origem.

 

No caso do segmento trans e travestis, o desespero patológico de pertencer a estrutura binária dominante, com intuito de burlar inicialmente a rejeição afetiva familiar, acaba construindo pontes para o poço sem fundo do extremismo, subjulgando as nossas identidades de gênero, fabricando um dos pilares para a tão temida e terrível disforia de gênero. Uma sociedade que insiste em padronizar os corpos e identidades é a mesma que tenta hegemonizar grupos considerados marginalizados na expectativa da exterminação, produzindo uma cultura de violência, discriminação e exclusão. Não é de se estranhar, que por 16 anos consecutivos, o Brasil continua sendo o país que mais mata pessoas transexuais e travestis no mundo inteiro. A maioria das vitimas são compostas de pessoas negras e de baixa renda, tendo como exemplo o jovem trans de 24 anos, Teu Nascimento, que foi brutalmente assassinado dentro de sua casa em Salvador, e  hoje tornou-se símbolo de luta, através da Lei que o homenageia.

 

Vale também destacar que o país que mais mata é também o que mais consome pornografia de mulheres trans e travestis. A prostituição compulsória se torna uma obrigatoriedade para as pessoas transexuais e travestis, já que os dados apontam que 90% vivem em situação de vulnerabilidade social,  tornando-as alvos fáceis para alimentar os dados estatísticos de tráfico de pessoas no Brasil e no mundo.

 

A expectativa de vida de pessoas travestis e transexuais é de no máximo 35 anos. Outro exemplo é o da jovem transexual Rihanna Alves, de apenas 18 anos, que foi assassinada em dezembro de 2025, no município de Luís Eduardo-BA, diante da questionável atitude institucional que causou comoção nacional, suscitando diversos debates acerca da violência de gênero, refutando os dados que são divulgados pela Associação Nacional de Travestis Transexuais (ANTRA) e a Rede Trans Brasil.  

 

Segundo a Organização Mundial de Saúde, mais de 840 milhões de mulheres já sofreram algum tipo de violência. É importante ressaltar que estes dados são pensados para as mulheres cisgêneras, invisibilizando as mulheres transgêneras.

 

As que conseguem sobreviver as tentativas de transfobia e feminicídio desenvolvem depressão, ansiedade, distúrbios do sono, dentre outros sintomas relacionados a saúde mental.

 

A violência de gênero é vista como um processo terrivelmente patriarcal que atinge mulheres de qualquer classe social, cor, religião, etnia ou identidade de gênero. No Brasil, a cada 24 horas, 5 mulheres são exterminadas, criando uma epidemia nacional.

 

Para que essa triste, invisível e adoecida metáfora seja vencida, faz-se necessário ações integradas entre sociedade civil e poder público, para a promoção, fortalecimento e empoderamento das identidades transexuais e travestis na Bahia e no Brasil, o que ocasionará  a plena cidadania e acolhimento social na tentativa de coibir práticas discriminatórias e violentas contra a comunidade.

 

*Paulett Furacão é ativista, escritora e coordenadora do Coletivo LGBTQIAPN+ Laleska D’Capri

 

*Os artigos reproduzidos neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do Bahia Notícias