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A IGREJA E O MACACO

Diego Magalhães

Às vezes tenho a sensação que existe uma deformidade cronológica-espacial que separam dois mundos. Apesar de curiosamente intercalarem-se numa complexa relação de antagonismo e mutualismo. A Igreja Católica parece vislumbrar a sociedade contemporânea com uma visão medieval. Os novos dilemas são contrapostos por velhos princípios dogmáticos que não condizem com a dita “modernidade cibernética”.
A Igreja Católica, expressada aqui pela facção majoritária conservadora, é terminantemente contra o uso de preservativo, ou de qualquer outro método contraceptivo, alegando o princípio da animalidade.
Percebo que ocorreu uma inversão de conceitos, por parte da igreja, em que a animalidade sobrepõe a humanidade. Não seria animalidade maior abster-se dos grandes problemas globais?  Seria humanístico combater a AIDS simplesmente pedindo aos fiéis para não manterem relações sexuais?
Observamos que a igreja está de costas para o mundo. Parece viver mais próxima das fantasiosas benesses do céu do que da realidade terrena. Onde estão as falaciosas e hipócritas conjurações ideológicas defendidas por esta instituição milenar, que tanto prega a fraternidade e a justiça?
Recentemente Leonardo Boff deu uma declaração dizendo que: “a cabeça pensa por onde os pés pisam”. Tal frase resume de forma sábia a interação do Vaticano com o resto do mundo. Trancado em dantescos salões abarrotados de valiosíssimas coleções de obras de arte, deleitando-se em leite e mel e baseando-se em dogmas da época da inquisição, o Papa analisa os problemas da humanidade.
Como dizia Caetano Veloso, ainda na década de 70, a igreja dá mais valor a um feto do que a uma vida. Acredito que o Vaticano deveria valorizar mais alguns setores da própria igreja, que estão mais próximos e solidários ao combate das atrozes injustiças terrenas.
A exemplo da Teologia da Libertação, que se mostra reacionária, libertária e muitas vezes revolucionária, não se escondendo em castelos de mármores, mas sim construindo casebres de barro, não pregando a abstenção sexual, mas sim, ensinando a homens e mulheres, planejamento familiar e o uso correto de contraceptivos, não considerando o homem uma ovelha, mas sim o pastor de sua própria vida.
Essa mudança de mentalidade é condição sinequanon para a permanência da instituição igreja nos próximos séculos, porque, como dizia Nietzsche, o super-homem está para o homem assim como o homem está para o macaco. Ou seja, enquanto a igreja nos olhar como macacos, estará se tornando mais primitiva e caminhando para a própria extinção.

Diego Magalhães é bacharel em Relações Internacionais, especialista em diplomacia cidadã e segurança humana.